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Antifas e antifascistas. Quem são? De onde vieram? Por que eles lutam?

Nina Lemos

03/06/2020 04h00

Reprodução

Afinal, o que é um antifascista? Antifascista é de direita ou de esquerda? Essas questões apareceram com força nos últimos dias depois que o presidente americano, Donald Trump, responsabilizou o movimento antifa pela violência nos protestos que abalam os Estados Unidos. E também ganharam visibilidade no Brasil após torcidas organizadas marcarem um ato antifascista em São Paulo contra o presidente Jair Bolsonaro, contra o fascismo, o racismo e em defesa da democracia. Nas redes sociais, muita gente publicou imagens do símbolo antifascista e se declarou "professor antifascista" ou "médico antifascista".

Não são perguntas tão fáceis, já que o antifascismo é diverso, muda em cada país e é novidade no Brasil. Para responder algumas dessas dúvidas, o blog conversou com o cientista político alemão Patrick Laffos, de 39 anos, que é também livreiro e próximo do movimento antifascista de Berlim há 20 anos. A Alemanha é um dos berços do antifascismo, mais precisamente do "Antifa" (Antifascist Aktion). 

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Segundo a socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, o Antifa alemão é considerada por muitos historiadores uma referência precursora do antifascismo como movimento concreto que vemos hoje. "O nome Antifa não se populariza apenas como abreviação, mas como referência e pela repercussão generalizada. Mas nesse momento existiam também grupos fazendo ações antifascistas em países como a França, a Espanha e na região da Itália e da Eslovênia", explica.

Leia trechos da entrevista com Patrick Laffos abaixo: 

Universa – Algumas pessoas no Brasil estão um pouco confusas com o antifascismo e se perguntam coisas como: "O antifascismo é de esquerda ou de direita"? Qual é a resposta para essa questão?

Patrick Laffos – Como o antifascismo é um "antimovimento", para entender a luta deles, a gente tem que entender contra o que eles lutam: que é contra o fascismo e o nazismo. Antes da Segunda Guerra Mundial, eles tentaram parar os movimentos fascistas na Europa. Depois da Segunda Guerra, na Alemanha, por exemplo, ser contra o nazismo significava tirar todos os nazistas que ainda estavam no poder, no sistema político ou judicial. Depois, eles perceberam que os nazistas tinham encontrado uma nova casa em partidos conservadores. Além disso, o antifascismo foi criado pelos comunistas alemães. Então, é óbvio que o único espaço que ele pode ocupar é na esquerda. 

Por causa da terrível história alemã, estamos dolorosamente cientes de que conservadores e pessoas de direita não são aliados contra o fascismo. Historicamente, eles sempre estiveram ao lado dos fascistas. Isso porque o socialismo é uma ameaça para o "estilo de vida" deles. E o fascismo não é. 

Atualmente, no Brasil, a gente vive um momento em que temos medo de perder as garantias democráticas. Por isso, "democracia" tem sido um dos gritos de guerra das manifestações por lá. Acho curioso que, para a maioria dos antifascistas alemães, democracia e voto são instituições em que eles não acreditam. O que você acha disso?

Eu não acho que democracia não deva ser parte de um estado antifascista. Mas só a democracia não garante uma sociedade livre do fascismo. Eu entendo que sem eleições livres, sem liberdade de expressão, sem direito a manifestação, ou sem ser capaz de ter uma voz, lutar contra o fascismo é muito mais difícil. Mas a luta não para por aí. Tenho certeza de que alguns antifascistas alemães diriam que a gente não vive em uma democracia aqui na Alemanha (embora possam querer debater sobre o tipo de democracia em que a gente vive). Mas todos iriam concordar que a democracia não faz um país ser antifascista. E, de novo, isso não é retórica filosófica, são lições que aprendemos dolorosamente com a história alemã. 

Quais as bandeiras desse movimento?

Essa é uma questão muito boa e difícil de responder.  Começando pelo nome, antifascista, a gente vê que não é um movimento por algo. Mas contra alguma coisa. Essa é a grande vantagem do antifascismo e também a grande desvantagem. Isso porque o movimento antifascista tem um objetivo muito claro: "pare o nazismo!" Essa pauta pode juntar muitas pessoas de esquerda. Mas, ao mesmo tempo, outras se perguntam: "mas e depois? O que eles querem?". Essa é uma questão que a esquerda ainda não conseguiu concluir. Eu, pessoalmente, acho que o antifascismo não será capaz de destruir o capitalismo e construir uma sociedade utópica. Mas sua independência das escolas tradicionais de filosofia torna o antifascismo mais resistente e poderoso. Quando essas escolas tradicionais falham, o antifascismo ainda está lá.

Dá para ser antifascista em uma sociedade capitalista como a nossa?

Claro. Ninguém vive à parte da sociedade capitalista e não é todo mundo que é fascista.  O fascismo é uma coisa tão forte, material, que a gente não precisa estar fora do sistema para lutar contra ele. Mas, claro, a gente não pode esquecer que o capitalismo e o fascismo são aliados históricos e que, se você luta contra um deles, inevitavelmente vai ter que lutar contra o outro também. Mas isso não significa que a luta contra o fascismo não seja possível dentro de uma sociedade capitalista. Essas lutas nunca são puras, nunca são sem contradições. Por isso mesmo essa luta é tão importante. 

O antifascismo está presente nos protestos dos Estados Unidos e do Brasil. Por que você acha que os Antifas estão tão populares atualmente?

Eu tenho contato com os antifascistas desde o início da minha vida política, nos anos 1990. E, a partir dos anos 2000, quando me mudei para Berlim, passei a ter contato com muitos dos seus representantes, ir a reuniões. O que eu logo percebi é que ser Antifa significava tomar posição em assuntos que não eram meramente "lutar contra os nazistas ou fascistas". Por um tempo, uma questão que era muito debatida era a dicotomia entre o estado de Israel e a Palestina. Mas era um movimento mais marginal, longe dos holofotes. As coisas mudaram por causa da escalada fascista no mundo atual. O ressurgimento do fascismo naquilo que a gente pode chamar de mundo ocidental está deixando muito clara a necessidade de um movimento antifascista. Por isso eu acho que o movimento está ganhando tanta força. 

O antifascismo é diferente em cada país, certo? Como te disse, no Brasil atual os antifascistas precisam pedir democracia…

Claro. Os Antifas são totalmente diversos, eles não têm uma ideologia fechada. Eu acho que isso dá força para o movimento, pois permite uma grande solidariedade entre grupos Antifas de todo o mundo sem precisar ter discussões e brigas sobre tendências de posicionamento, que lado tomar e coisas assim. Talvez, em poucas palavras, o antifascismo seja isso, e com isso acho que todos os esquerdistas vão concordar: o fascismo não pode prevalecer. 

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.