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Mulheres cuidam de todos durante a pandemia. Mas quem cuida da gente?

Nina Lemos

05/08/2020 04h00

(Gilaxia/ iStock)

"Gente, socorro, minha mãe está com falta de ar, vou pegar um táxi e mandar um oxímetro para ela." Uma amiga faz esse desabafo em um grupo de amigas. Na mesma hora, começamos a discutir estratégias para que ela pudesse visitar os pais, que estão sozinhos no isolamento. Ela faz as contas de quantas entregas os pais receberam, quem poderiam ter encontrado. No fim, nos mandou uma mensagem. "Ufa, o que minha mãe teve foi um ataque de ansiedade". Respiramos aliviadas e entendemos muito bem, pois, também temos cada vez mais esses momentos.

Não nos faltam motivos para ansiedade. Nunca nos preocupamos tanto, nunca cuidamos tantos dos outros. As mulheres de quem eu sou próxima, no momento: se preocupam loucamente com os pais, sozinhos em isolamento e os acalmam em pelo menos um telefonema por dia. Algumas ainda têm filhos em idade escolar. E por isso precisam ser a escola de uma criança que está trancada em casa há seis meses.

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E, claro, cuidamos uma das outras, afinal, ninguém solta a mão de ninguém. No meu grupo próximo de amigos, duas mulheres perderam parentes próximos para o Coronavírus.

No meio disso tudo, algumas de nós ainda tem que cuidar de parceiros e relacionamentos que degringolam em tempos de pandemia. O número de divórcios aumentou drasticamente em todos os estados do Brasil.

 

Se serve de consolo, não estamos sozinhas, uma pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, junto com a Sempre Viva Organização Feminista mostrou que metade das mulheres passou a cuidar de alguém durante a pandemia. Isso, claro, além das pessoas de quem a gente já cuidava antes.

72% das entrevistas sentiram também aumento na necessidade de monitorar e fazer companhia para outros, como idosos, crianças, amigos com problemas. 

Sim, em geral somos nós, mulheres, que telefonamos para saber se pessoas da nossa família ou rede de amigos estão bem. Damos atenção a aqueles que mais precisam no momento, entre família e amigos. "Eu que lembro meus irmãos de ligarem para a minha mãe, senão eles não mandam nem mensagem via whatsApp", diz uma amiga.

Somos as cuidadoras do mundo. Mas, depois de seis meses de pandemia, estamos cansadas e sem esperança. Mas a gente, claro, não está podendo se dar ao luxo de surtar. Quem pode dar ataque, chorar e jogar tudo para o alto se temos que cuidar da criança sem escola, do trabalho, da mãe, do pai, da tia e do irmão? 

Como isso está nos afetando? Bem, uma pesquisa feita pela plataforma americana "Total Brain" de junho/2020 mostrou que, desde fevereiro, o nível de ansiedade entre as mulheres aumentou 52%, enquanto o dos homens, 29%. 83% das mulheres pesquisadas relataram sentimentos depressivos. É um número muito alto.

E o que fazemos quando não aguentamos mais? Ligamos para nossas amigas, que sentem o mesmo. Será que nós também acabamos sobrecarregando nossas amigas? 

Se isso demorar (a OMS disse ontem que existe a possibilidade de que não exista uma vacina!) não vamos aguentar nessa pegada. Uma hora vamos pifar. Por enquanto, não se cobrem (e nem nos cobre, por favor) sobre estar ótima, ser uma boa mãe, fazer pão, arrumar a casa ou fazer cursos online. A gente está fazendo o que dá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.