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Na França, jovens desafiam pandemia e preocupam Europa

Nina Lemos

11/08/2020 04h00

Foto: TopWarut/ iStock

Na tarde de ontem, autoridades e cidadãos chocados acompanhavam o desenrolar de uma história bizarra na França. Cerca de 5 mil pessoas permaneciam na manhã de segunda=feira, em uma festa ilegal no sul do país. Uma espécie de "confinamento" forçado.  A polícia da cidade de Lozère, na zona rural, e a prefeitura montaram centros de coleta de exame de coronavírus, distribuíram máscaras e álcool gel e confiscaram os carros dos presentes, para que eles não saíssem e corressem o risco de espalhar o vírus ou que dirigissem bêbados.

No momento em que esse texto foi concluído, eles tentavam fazer com que os participantes saíssem aos poucos e seguindo protocolos de segurança. 

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A festa, que começou no sábado, reuniu cerca de 10 mil pessoas. Muitas delas foram de trailers para acampar. As medidas de contenção do vírus foram ignoradas. Detalhe: festas de mais de 5 mil pessoas ainda são proibidas na França pelo menos até dia 31 de agosto.

Seria engraçado, se não fosse trágico, que milhares de pessoas ficassem presas em uma festa dessas. Uma situação mais radical aconteceu no Panamá no início da pandemia. Pessoas do mundo todo viajaram para o país a fim de curtir o  "Tribal Gathering Festival", que foi apelidado de "O último festival da Terra". Quase foi o último mesmo, já que eles foram surpreendidos pelo vírus e tiveram seus passaportes confiscados. Alguns dos participantes ficaram mais de um mês presos no tal "paraíso".

Nesse caso, eles não sabiam da pandemia, então, tudo bem. O problema é: desde que as medidas para conter a pandemia começaram a ser implementadas,  fãs de música eletrônica irresponsáveis, jovens e outras espécies de unicórnios passaram a fazer festas ilegais.  Toda semana festas desse tipo são realizadas em vários países da Europa sem controle algum em relação ao vírus.

Nos países em que as medidas de isolamento foram relaxadas porque a curva foi achatada, os clubes ainda não voltaram a funcionar.  Talvez eles estejam entre os últimos estabelecimentos a abrirem, já que pessoas suando, depois de fazer uso de álcool ou substâncias, fechadas, podem, obviamente criar surtos de casos. Na falta de trabalho e de festas, algumas pessoas organizam raves, as festas que se popularizaram nos anos 90 (eram festas bacanas, que celebravam a música e o espírito livre, ou seja, eram bem diferentes dessas festas de agora no meio da pandemia).

Na Alemanha, onde moro, conhecida por ter uma das cenas de música eletrônica mais animada do mundo, quase toda a semana a polícia fecha alguma festa em um parque frequentado por hipsters. As aglomerações reúnem cerca de 3 mil pessoas. Aqui, os encontros de até cinco mil pessoas são autorizados desde que se mantenha o distanciamento e o uso de máscaras. Bebidas alcoólicas não devem ser vendidas, mas esses requisitos não são cumpridos.

Em maio, assim que as medidas de isolamento começaram a afrouxar, cerca de 3 mil pessoas se reuniram em um "protesto" em barcos no canal do bairro de Kreuzberg. A ideia era pedir incentivos para os clubes. Mas no meio da crise do coronavírus e dos protestos por George Floyd, as fotos de barcos apinhados de pessoas dançando, algumas  em barcos com cartazes escrito "Black Lives Matter" foi no mínimo de mau gosto. Foi um escândalo, muitas pessoas da cena de música eletrônica se disseram envergonhadas. Mesmo assim, as festas ilegais continuaram.

O mesmo acontece na Inglaterra, o país onde as raves (as originais) foram ainda mais presentes. Por lá, a polícia tem acabado com festas. Em uma delas, houve conflito entre frequentadores e a polícia.

O que pensam essas pessoas?

Mas como pode, no meio de uma pandemia mundial, as pessoas se comportarem assim? O pensamento geral é: "não vai acontecer comigo, está tudo bem", ou "sou jovem, não pego". A situação aparentemente sob controle, faz com que o temor fique longe para muitos. Só que a situação costuma ficar ruim de novo – inclusive por culpa dessas pessoas e outros negacionistas em geral. 

A ministra de saúde de Berlim disse na segunda-feira que pensava em proibir a venda de álcool em bares (sim, eles estão abertos) e que eles passariam a ser mais fiscalizados. Isso depois que casos de COVID-19 começaram a ser diagnosticados entre frequentadores de bares e festas.

Autoridades de saúde de toda a Europa pensam em soluções. Isso porque não, não está tudo bem. O continente enfrenta crescimentos exponenciais nos números de novas infecções e, para alguns cientistas, uma segunda onda de contágio é praticamente inevitável.

 Se isso acontecer, vai ter contado com a irresponsável colaboração dessas pessoas…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.