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Oscar lança plano de diversidade e cria pânico em Hollywood. Por quê?

Universa

11/09/2020 04h00

Imagem: Frederick M. Brown/Getty Images/AFP

"Quando ganhei o Oscar, pensei, nossa, todos esses roteiros maravilhosos virão para mim. Não foi o que aconteceu. Tive até menos propostas. Acho que não havia lugar para alguém como eu." A declaração foi dada essa semana pela atriz Halle Berry para a revista Variety. Halle é a única mulher negra a já ter ganho o prêmio de Melhor Atriz. E olha que isso foi em 2002. "Isso me corta o coração, achei que tinha aberto uma porta. E então não houve mais ninguém", disse. Absurdo? Claro.

Essa semana, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana anunciou um plano ambicioso para tornar a premiação mais famosa do cinema mais inclusiva e diversa, que vai valer a partir do Oscar de 2024.

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O que antes era colocado para baixo do tapete, agora causa indignação. Em 2016, nomes importantes do cinema como Spike Lee anunciaram um boicote ao prêmio, que, desde então, tenta ser mais diverso.

Mas os anúncios de mudanças no Oscar causaram pânico em Hollywood. Atores como James Wood e Kirstie Alley falaram em "loucura". A atriz chegou a dizer que as medidas eram ditatoriais e "anti-artista". Muitos falam que esse é o fim da criatividade e dos bons tempos de Hollywood. "O Oscar foi arruinado", "isso é uma loucura". Claro, quem reclamou era … branco e americano. Logo, nunca sentiu na pele a falta de representatividade ou de trabalho, coisa que até uma vencedora do Oscar, como Halle, sente.

A partir de 2024, para concorrer à categoria de melhor filme (e só essa) terão que obedecer a certos fatores. Primeiro, os filmes tem que se enquadrar em uma das duas categorias a seguir:

Contar a história sobre uma mulher, pessoas com deficiência, ter temática racial ou LGBT. Ou ter um ator em um dos papéis principais que seja de um grupo étnico sub "representado" (negro, hispânico, oriental, indígena… ). Se o filme não se encaixar nessas duas, ainda pode ter 30% dos atores que sejam desses grupos pouco representados. Atenção, o filme não tem que obedecer a TODOS esses critérios, mas apenas a UM deles.

Outras mudanças obrigam que as produções empreguem mais mulheres, pessoas com deficiência, imigrantes e LGBTS, inclusive em cargo de comando. Para isso, as produtoras devem incentivar a formação desses profissionais.

Bem, olhando isso, não parece que o Oscar, como dizem alguns, será arruinado, certo?

Pelo jeito, os produtores milionários vão ter só que trabalhar mais um pouquinho e sair da acomodação. Não é possível que ter mais mulheres, imigrantes e LGBTs em um filme vá… arruiná-lo. Calma, gente.

Agora, será que vai resolver? Ou será que as produtoras vão dar truques para tentar cumprir o protocolo? Mulheres, negros e outras "minorias" serão colocados nas produções só para disfarçar ou terão trabalho de verdade? Não sabemos.

Fato: as indústrias mais poderosas do mundo já perceberam que representatividade importa e traz lucros. Os responsáveis pelo Oscar não estão fazendo isso porque são bonzinhos, mas porque querem continuar lucrando e de adaptando. Mas… melhor assim, não?

Falando nisso, bem que as TVs brasileiras poderiam olhar para esses exemplos e passar a dar mais espaços para gays, trans e negros, indígenas. Qual foi a última novela que você assistiu que era protagonizada por uma pessoa negra? Não lembra? Nem eu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.