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Ei, fiscais de luto: deixem a gente sofrer a perda do museu em paz

Nina Lemos

05/09/2018 04h00

Thiago Ribeiro/Agif/Estadão Conteúdo

"Até parece que você ia ao museu. Está todo mundo triste, mas, antes, ninguém ligava."

Esse é um dos argumentos que estão sendo usados nas redes (e também fora delas) para desqualificar a comoção e a tristeza causada pela destruição do Museu Nacional em um incêndio, no Rio de Janeiro.

Domingo, vimos as chamas consumirem o maior museu de história natural da América Latina, que guardava tesouros arqueológicos de milhares de anos e que ficava no palácio que foi residência da família real. Só isso já deveria ser o suficiente para que as pessoas entendessem que existem todas as razões do mundo para ficar triste.

Ver uma parte tão importante da nossa história queimar é como ver a casa da família, onde crescemos e brincamos, desaparecer em chamas.

E, não, você não precisa ir a museu todo fim de semana para lamentar a perda de um patrimônio daqueles.  Se você vê um prédio que faz parte do patrimônio histórico do Brasil em chamas, normal que você fique triste.

Viúvas apaixonadas

O discurso de que antes "ninguém ligava para o museu" foi usado até por ministro.

"Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas na verdade essas viúvas não amavam tanto assim o museu", disse o Ministro da Secretaria do Governo Carlos Marun.

Com todo respeito, não ligávamos porque ele existia, oras, e acreditávamos que continuaria existindo.  Quem nunca foi lá (tive a sorte de ir muitas vezes) ainda poderia ir um dia. Ele estava lá (com todo o seu patrimônio).  Viúvas, ministro? Respeite a nossa dor!

Eu nunca fui ao Museu do Louvre, mas, se ele queimar, vou entender que foi uma tragédia para a humanidade e vou ficar triste porque coisas importantes se perderam. Também nunca visitei Inhotim. Se o museu pegar fogo (bate na madeira), vou chorar de tristeza e raiva ao ver obras de arte se perderem.

"Nossa, todo mundo agora passou a gostar de museu", diz o fiscal de luto, um dos tipos mais irritantes das redes sociais. Gente, cada um pode ficar triste pelo que quiser. E se todo mundo começar a gostar de museus agora, que bom!

Segunda, muitos dos meus amigos e familiares choraram por causa da perda do museu. Muitos ainda choram. "Ah, mas não morreu ninguém". Não. Mas desapareceu um arquivo que levou 200 anos para ser montado. E, junto com as chamas, se foram o trabalho de cientistas dedicados que literalmente deram a vida para o museu.

Mas, em tempos de redes sociais e fiscalização da vida alheia, muitos trocam a empatia pelo cinismo. Ao invés de tentar entender porque as pessoas estão tristes, muitos que não estão (tudo bem, ninguém é obrigado a sofrer) decidem desqualificar a tristeza do amiguinho com cobranças: "Mas você ia lá? Você nem sabia que existia", respondem, em tom de acusação.

Bem, quem não sabia que existia e ficou sabendo da dimensão dos tesouros que ali eram guardados depois do incêndio também tem todo direito de se chocar e ficar triste, não?

Na verdade, todo mundo tem direito de ficar triste pelo que bem entender e sem ter que dar explicações e sem ouvir o coleguinha cutucando.
OK, até posso entender os "fiscais de luto". Deve ser mais fácil colocar essa máscara de cinismo para se proteger do que sofrer com a perda. Mas que é chato, ah, isso é.

Deixem a gente sofrer em paz.

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Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.