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Nina Lemos

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"Esperavam o quê? Que eu cantasse em bares?", diz Jean Wyllys sobre Harvard

Nina Lemos

12/09/2019 11h44

"É verdade que o Jean vai dar aula em um instituto de Harvard?" Desde o início da semana, desde que o ex-deputado, jornalista, professor e escritor Jean Wyllys postou uma foto com seu novo crachá da universidade no Instagram, um monte de gente tem feito essa pergunta no Brasil. Sim, é verdade. Jean Wyllys  passará esse semestre como professor convidado do Afro-Latin American Research Institute, Instituto Afro-Latino, de Harvard, nos EUA. Só que Jean não esperava tanta repercussão de um fato que, para ele, era apenas natural.

"Em setembro não estarei aqui, vou para Harvard", ele comentou em uma roda de amigos em Berlim em agosto (da qual, inclusive, participava essa blogueira), como se fosse a coisa mais normal do mundo. Jean estava animado, mas para ele esse era um passo natural na carreira que vem construindo fora do Brasil.

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Desde o ano passado, quando deixou o país depois de receber por anos ameaças de morte (que se agravaram com a eleição do presidente Jair Bolsonaro) ele vive em Berlim, mas viaja a maior parte do tempo  dando palestras como bolsista do departamento europeu da Open Society Foundation (criada pelo milionário George Soros). Tem circulado uma semana em Madri, depois vai para Londres, convidado pela London School of Economics, ou para os Estados Unidos, convidado pela Brown University, em Rhode Island. 

Desde que abriu mão de seu mandato de deputado, Jean é palestrante, professor, blogueiro do UOL e escritor. Ele acaba de lançar "O que será", pela Companhia das Letras, obra em que conta parte de sua trajetória. 

Sua ida para Harvard causou escândalo. Os aliados ficaram felizes e se sentiram, de certa forma, vingados. Por outro lado, a ida afetou até o irmão do Ministro da Educação do Brasil e assessor especial da presidência da República, Arthur Weintraub, que comentou no Twitter: "Jean Willis (sic) dará aulas em Harvard sobre como se exilar sem motivos em países capitalistas fazendo discurso comunista? Harvard é padrão USP."

Jean falou sobre sua estada no famoso campus americano onde está desde o início do mês com exclusividade para o blog.

Universa: Você esperava essa repercussão de seu novo projeto, em Havard?

Jean: Estou acompanhando mais ou menos essa repercussão. Não vejo como motivo de surpresa esse passo para alguém que é mestre em Letras e Linguística, que já criou um curso de pós-graduação lato sensu em Jornalismo e Direitos Humanos para uma universidade, que já escreveu prefácios para livros de renomados intelectuais, publicou cinco livros, exerceu dois mandatos parlamentares voltados principalmente para as questões de minorias, direitos humanos e cultura e que teve que sair do país devido a graves ameaças de morte. Não há motivo para tanta repercussão alguém com esse currículo ingressar no ALARI (Afro-Latin American Research Institute) de Harvard… O que as pessoas esperavam? Que eu fosse fazer shows em bares? [risos] Eu até canto, mas só em áudios enviados a amigos íntimos!

Mas, voltando à questão, por outro lado, eu acho que a enorme repercussão tem a ver com o que a maioria das pessoas no Brasil percebe como justiça cósmica: eu ingressei pela porta da frente e com o status de professor-pesquisador na universidade fetichizada pelos bolsonaristas, no país que estes idolatram. Todos sabem que ministros do governo Bolsonaro e o governador do Rio,  Wilson Witzel, inventaram que fizeram cursos em Harvard. 

Quem está em Harvard, de fato, é a pessoa que os mentirosos no Brasil difamam, caluniam, odeiam: e está porque tem currículo de peso, porque tem muito a dizer — e aprender, claro —  neste momento àquela comunidade acadêmica. Os brasileiros do bem se sentiram vingados [risos]. 

Universa: Há também um questionamento de como um ex-BBB vira professor de um instituto de Harvard…

Jean: Sim, claro. Estou no ALARI de Harvard por um semestre, para aprofundar estudos já iniciados sobre o fenômeno das notícias mentirosas e sua articulação com os discurso de ódio contra minorias sexuais e étnicas e para dar aulas e conferências sobre os resultados desse estudo. Mas Harvard é o templo de formação da elite mundial. Isso desperta um ressentimento enorme em quem acha que aqui não é meu lugar.

Há gente no Brasil que se pergunta: "Como alguém que passou toda sua infância e início da adolescência na pobreza, teve que começar a trabalhar aos dez anos de idade para ajudar a mãe e os irmãos, que é nordestino, mestiço, que não tem sobrenome, que iniciou seu contato com o inglês tardiamente — aliás, eu leio em inglês muito melhor do que eu falo, justamente por causa desse contato tardio — que não fez intercâmbio na juventude e que dividiu a formação no ensino superior com o trabalho, como alguém 'dessa laia' chega em Harvard, e eu (ou meu filho) não?".

 É como se esse lugar onde estou não fosse meu, como se eu estivesse usurpando porque historicamente ele sempre foi de quem é branco, rico ou de classe média alta e tem sobrenome. Não estou. Este lugar é meu, sobretudo porque eu o conquistei apesar de todos os obstáculos que me foram impostos, da fome à homofobia. 

Universa: E como aconteceu o ingresso na Universidade?

Jean: Eu fiz uma conferência em Brown University no início deste ano. Era minha segunda conferência lá, e havia, entre os ouvintes, professores de Harvard. Nessa ocasião, eu já estava estudando as fake news como bolsista da Open Society Foundation e já havia passado pelas mais prestigiadas universidades europeias como conferencista.

Então, um desses professores me convidou a apresentar uma proposta de estudos para Harvard. Disse-me que a universidade teria todo interesse no tema das fake news e seus impactos nas democracias e que minha perspectiva sobre esse tema era singular, porque eu via o fenômeno por dentro e por fora, com uma capacidade igualmente singular de articular os áreas da conhecimento em que tenho formação: Comunicação, Letras e Linguística e Estudos Culturais, mais a experiência em política. E ele me disse também que era tradição de Harvard garantir que intelectuais em risco ou perseguidos politicamente fizessem seus estudos. Tudo isso me trouxe aqui. E aqui estou. O ALARI de Harvard abriga pesquisas incríveis sobre África, Caribe e América Latina.

O conhecimento que se produz aqui se traduz depois em políticas públicas, tecnologias e saberes que buscam tornar o mundo um lugar melhor e mais justo, e erradicar desigualdades sociais, raciais e de gênero. Estou em casa, intelectualmente falando.

 

Nota do editor 1: este texto foi alterado na segunda pergunta da blogueira. Onde se lia "professor de Harvard", acrescentamos a informação "professor de um instituto de Harvard".

Nota do editor 2: procurada, a universidade declarou que o instituto ALARI realmente faz parte de suas dependências. "O Instituto de Pesquisa Afro-Latino-Americano da Universidade de Harvard é a primeira instituição de pesquisa nos Estados Unidos dedicada à história e à cultura de povos de ascendência africana na América Latina e no Caribe. É um centro [de pesquisa] ligado à Harvard".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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