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Nina Lemos

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Emoji de risada em notícias tristes: não seja um passivo-agressivo virtual!

Nina Lemos

2011-02-20T19:04:00

11/02/2019 04h00

Você posta no Facebook uma notícia sobre alguma coisa trágica, como, por exemplo, o aumento do número dos assassinatos de gays no Brasil. As pessoas reagem com emoticons de tristeza, raiva. No meio, alguns colocam uma carinha rindo. Mas…. Como as pessoas fazem isso?

Quando comecei a ver essa reação, de início, achei que era erro. A pessoa deve digitado no lugar errado, normal. E também usei algumas desculpas para não perder a fé na humanidade: "ah, é só um emoticon, uma carinha, as pessoas não sabem usar direito, afinal, isso é coisa de criança."

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Quem me chamou a atenção para que aquilo era de verdade foi meu amigo Vlad, editor aqui da Universa. "Repara, o riso é a nova cara de ódio".

Temos estranhos, esses. E não é que ele tinha razão?

As reações de riso estão embaixo de notícias sobre mulheres assassinadas, famosos com doença, pessoas com depressão. Sim, as pessoas literalmente passaram a rir da desgraça dos outros.

Viramos monstros? Ou já éramos?

Uma teoria que me vem: nas redes, como já sabemos, estamos escondidos pelo anonimato, ou pelo menos a uma distância física bem grande da pessoa que agredimos. Isso faz com que algumas pessoas liberem uma espécie de psicopata interior.

Queria ver muitas dessas pessoas agindo assim na vida real (e arcando com as consequências, claro). Será que elas gargalhariam na cara das pessoas com problemas? Duvido.

Ontem mesmo, vi o seguinte exemplo em uma comunidade de brasileiros na Alemanha: um cara escreveu falando que estava sendo perseguido no Brasil por ser gay. Ele se dizia desesperado e pedia informações sobre a vida na Alemanha. Reações: algumas carinhas tristes, outras de raiva (compreensíveis) e… risos! Sim, as pessoas usam a ferramenta para rir do desespero alheio! Elas não têm coragem de escrever no post um : " hahaha, se ferrou!". Mas é isso o que elas estão querendo dizer, certo?

Antro de passivo agressivos

As redes sociais (e psicólogos já atestaram isso) são um ambiente ideal para passivo-agressivos agirem.

Os P.As, para quem tem a sorte de não saber e nunca ter encontrado um na vida, são aquelas pessoas que te destroem por meio de indiretas e desprezo. Elas nunca, jamais, vão para o confronto direto. Mas, por exemplo, tem o dom de dar aquela risadinha de bem feito (se fazendo de fofo, ou fofa) na hora que você se dá mal. Ou de soltar um comentário que magoa de verdade e em seguida justificar: "era só brincadeira". Medo dessas pessoas.

O comportamento passivo agressivo é um dos jeitos mais irritantes de machucar alguém. Ao invés de xingar, falar na cara, você dá um risinho, você despreza, humilha.

Rir de uma tragédia (mesmo que seja por emoticon) ou de um desespero de alguém é o mesmo que falar: "bem feito, você merece." Ou, pior, escrever, diante da dor de uma pessoa: "mimimi". Se a pessoa está desesperada, escutem, não é MIMIMI. Você pode até achar, mas é sofrimento humano, e ele deve ser respeitado, não tratado com descaso do estilo: "hahaha, como você é ridícula."

Ah, mas é apenas um emoticon! Sim. E é apenas Facebook. Verdade. Mas quanto tempo da nossa vida passamos dando corações, joinhas, carinhas de raiva, de triste e de risadinha no Facebook? Horas. Somos todos meio (muito) infantis? Sim. Mas dá para tentar ser, pelo menos, uma criança educada. E não rir na cara do coleguinha e depois falar: "ah, tava rindo de outra coisa!". Sim, é assim que os passivo-agressivos agem! Medo! E, por favor, não reajam com risadinhas a esse texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.