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Nina Lemos

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Marcia Tiburi conta por que saiu do Brasil: "Não era mais viável"

Nina Lemos

11/03/2019 13h32

Marcia Tiburi não mora mais no Brasil. Desde dezembro do ano passado, a escritora, filósofa e ativista, que foi candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT, achou que o Brasil não era mais seguro para ela e para continuar fazendo seu trabalho de escritora e ativista.

"Eu não podia ir a uma padaria, recebia ameaças de morte, não dava para viver assim", diz a escritora, em entrevista exclusiva para o blog de Pittsburgh, onde faz uma residência literária. Na semana seguinte, mudaria com o marido para Paris.

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Ela não pensa, por enquanto, em voltar a morar no Brasil. A escolha não foi uma simples vontade de morar fora. Marcia conta, com lágrimas nos olhos, que teve que sair por não se sentir segura, sofrer ameaças de morte e não poder mais ir na esquina.

"Eu amo o meu país, nunca pensei em sair do Brasil na minha vida, é muito triste e difícil ter que sair do meu país por não me sentir segura e não poder fazer mais o meu trabalho."

A escritora está lançando o livro "Delírio de Poder", que conta os bastidores de sua campanha para governadora pelo PT e ao mesmo tempo faz uma análise da conjuntura brasileira e das coisas que ela passou durante a campanha, como ser alvo de Fake News. "São crônicas e também reflexões, e, claro, uma chance de ver toda essa loucura que vivi sobre o ponto de vista teórico, da filosofia", conta. Leia abaixo trechos da entrevista.

No seu novo livro você narra sua campanha como Governadora do Rio de Janeiro. É um livro de bastidores ou de filosofia?

A minha vida é assim, escrevo a partir das experiências da minha vida que também se transformam em experiências de pesquisas. Para mim, ser filósofa é isso. Por isso, quando participei dessa campanha, fiquei muito atenta a tudo que acontecia. Estava muito curiosa, porque era tudo muito novo. Tive a chance de fazer uma avaliação teórica sobre o que significa uma mulher, estranha, que não era da política, nesse papel. Fiz uma reflexão grande sobre o papel da intrusa, que é como os homens interpretam. Inclusive, interpretam assim porque são muito raras as mulheres que estão na política. O livro chama "Delírio do Poder" porque vivemos uma campanha completamente louca. Eu queria contar o que era estar mergulhada nesse território de loucura.

Que tipo de loucura?

Eu fui alvo de muitas fake news. Tinha fake news da direita, da esquerda. São muitas, mas uma das mais malucas é a de que eu estaria fazendo campanha para o Bolsonaro. Gente, olha o grau de delírio de quem inventou uma coisa dessas. Eu estava fazendo campanha para o Lula, para o Haddad, para o PT, mas na verdade estaria fazendo campanha para o Bolsonaro. Tem que ser muito louco! E tem outra, não é só a fake news, é também a desinformação. Por exemplo, pegavam um vídeo de uma palestra que eu dei, de um tema complexo, e recortavam, deixando a fala completamente fora de contexto.

Como foi o processo que fez com que você decidisse sair do Brasil?

Olha, a minha vida virou um inferno desde o episódio da radio Guaíba (Na ocasião, Marcia se recusou a participar de uma entrevista com Kim Kataguari, o vídeo da entrevista viralizou). Você não tem ideia da quantidade de ameaça de morte que eu recebi pela internet.

Mas ameaça de morte mesmo?

Claro, veja, eu amo meu país! Eu adoro o Brasil! Eu nunca pensei em sair de lá. Já tive chance de sair e nunca quis, porque adoro o Brasil. E é muito ruim a gente sair por causa disso (chora). Eu não podia ir mais na farmácia, no supermercado. Um dia eu caí na besteira de entrar no metrô em São Paulo. Fui atacada por um cara que gritava comigo: "eu tenho orgulho de ser fascista! Eu tenho orgulho de ser fascista". Foi muito assustador porque o sujeito caía no estereótipo mesmo de um fascista, fisicamente até. Mas o que eu acho um ponto importante é que meus eventos literários começaram a ser inviabilizados. Eu vivia indo a festivais, feiras de livros. Eu amava fazer isso. Desde aquela época, todos os meus eventos passaram a ter segurança. Teve coisas muito absurdas, brigas. Recebia uma mensagem: "quando você estiver lá, assinando o livro, eu vou estar lá e vou te matar." E na rua, durante a campanha, andei sempre de carro blindado.

As ameaças devem ter aumentado durante a campanha…

As pessoas do campo da segurança, policiais amigos, gente próxima, diziam "a gente vai te proteger, mas cuidado, não vá a certos lugares, se for em restaurantes, não senta na janela". E eu ficava com medo e não ia, claro. 

Quando você percebeu que era melhor sair do país?

Teve um momento em que o MBL fez uma página sobre um evento que eu ia fazer em Maringá, chamando pra uma manifestação. Queriam até proibir o evento. E foi muita gente lá para me apoiar em reação. Nesse dia estava todo mundo tão assustado que os organizadores providenciaram uma segurança armada, que revistou todas as mochilas e bolsas de todas as pessoas. Como que eu como escritora, vou viver em um lugar onde tem milíciais midiáticas, milícias armadas, milícias da maledicência me atacando, e também atacando o conforto e a segurança dos meus leitores? 

Como você materializou essa decisão?

Foi quando eu fui a Maringá e isso aconteceu. Achei que tinha se tornado inviável ser uma escritora no Brasil. Eu sou ameaçada, mas as pessoas também são. A vida da cultura se torna inviável porque as pessoas prometem assassinato. Isso é dado desde o Presidente da República e chega a todos. Isso autoriza as pessoas no imaginário. Tem uma fala da Meryl Streep interessante, num momento desses em que o Trump debocha de um jornalista que tem uma deficiência física, ela disse: "acho um absurdo o presidente fazer isso porque autoriza esse tipo de postura". O Bolsonaro e seus filhos fazem coisas parecidas. Eles autorizam todos a fazerem coisas horríveis.

Acha que tomou a decisão correta?

Quando recebi o convite para essa residência (Marcia passou três meses na universidade de Pittsburgh) eu realmente aceitei com gratidão. Vir para cá foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Por mim e pela minha militância também. Por que muita gente fora do Brasil não sabe o que está acontecendo e temos que falar. E vou começar. Dia 14, em Nova York, tenho um evento em nome da Marielle, depois vou para Paris, onde tenho um evento dia 26, sobre a proposta de uma rua chamada Marielle Franco, e queremos propor o mesmo em Nova York. Tem muita coisa para ser feita na militância internacional.

Como você acha que chegamos nesse ponto, de pessoas terem que deixar o país porque se sentem ameaçadas?

Nos meus livros falo sobre isso. Existe uma grande manipulação que não foi inventada em 2018. E não acho que isso tenha vindo com o WhatsApp, é de antes. Você vê, a perseguição ao pensamento critico, a matança dos jovens negros. Tudo isso culminou com a morte da Marielle Franco, que era tudo isso junto, ela era feminista, negra, lésbica, linda, generosa e também uma grande intellectual, a tese de mestrado dela é maravilhosa.

Por que você aceitou o convite para ser candidata a governadora?

Esse convite era inegável. Como voce vai negar um convite do Lula? O Lula, da cadeia, me mandou um prefácio para o meu livro. Que pessoa é essa? Eu não negaria isso ao Lula e muito menos ao PT, que é um partido que eu acredito que fez muito pelo Brasil. Mas ao mesmo tempo eu não preciso ser mártir.

Muitas pessoas te acusaram de não ser preparada para o cargo, por não ter experiência. Se via como governadora?

Claro que eu me via. Na hora que você assume uma candidatura dessa, isso é uma coisa seria. Eu sou uma pessoa responsável. Eu quando assumi, achei que poderia estar certo e que poderia dar certo, claro. Muita gente não acreditou, inclusive tive uma votação muito pequena.

Como você se preparou para o cargo?

Fiz uma espécie de pós graduação sobre o Rio de Janeiro, fui estudar. Sou aplicada. Eu sou obsessiva. Me dedico. Então estudei todos os problemas do Rio de Janeiro. Quando é para fazer, eu faço direito. Eu me preparei, claro. Se aceitei, tinha que levar a sério a possibilidade de que desse certo.

Quais são seus planos? Tem planos de voltar ao Brasil?

Estou morando em uma Universidade que abriga escritores em risco, tem mil atividades. Conhecendo a minha obra e a minha situação, me convidaram. Agora, vou para Paris porque meu marido que vai fazer um pós doutorado lá. Eu vou escrever e ele vai estudar. Me assumi cada vez mais como escritora, vivo disso. Tenho uma cidadania italiana, como metade do Rio Grande do Sul, mas gosto tanto do Brasil que eu nunca liguei para isso, nunca pensei que poderia usar. Agora, vai ser útil. Voltar ao Brasil… eu não sei quando. Eu espero que o país se cure dessa doença. Não tenho planos de ir ao Brasil, não. Acho que não dá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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