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Nina Lemos

Nina Lemos

Nem toda mulher sonha em ser mãe. Até quando vamos ter que repetir isso?

Nina Lemos

24/04/2019 04h00

"Ser mãe sempre foi o sonho da minha vida." "Finalmente estou plena" "Descobri a verdadeira felicidade". "Eu não sabia o que era ser feliz antes".

Quantas vezes você já leu entrevistas com mulheres que falam isso? Milhares. Pois é. No meio de quartos com nuvens em tom pastel (nada contra) vemos quase todos os dias mulheres falando sobre a realização do sonho da maternidade.  Parece até que todas nós nascemos para isso: ter filhos, virar mães. Espera. Estamos em 2019. Já sabemos que ser ou não ser mãe é uma escolha, certo? Mais ou menos.

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É só uma mulher falar que ter filho não é "o sonho lindo que eu sempre tive" para que isso vire um escândalo e a humanidade pergunte: "mas como assim?" , confusa, como se mulher e desejo de maternidade fossem palavras que estivessem que estar sempre juntas.

A atriz Sabrina Petraglia, grávida de nove meses e feliz, deu a seguinte declaração para a revista "Marie Claire".

Pergunta: Você sempre sonhou em ser mãe?

Resposta: "Não era um sonho ser mãe. Quer dizer, minha educação foi voltada a casar cedo, assim como minhas primas e ter filhos cedo, então, durante um tempo foi um sonho padrão, daqueles colocados pela sociedade, que é um emprego normal relacionamento longo, casar, ter filho… quando eu tinha 24 anos, terminei um noivado e entrei na escola de arte dramática. Virou minha vida do avesso…. Meu casamento e a gravidez do Gael foram coisas que aconteceram a partir de um encontro que deu e está dando certo. Deu vontade de casar e planejamos a gravidez."

Bem, achei essa declaração muito sensata e realista. E combina bastante com o que eu, mulher sem filho, vivo. E com a experiência de muitas amigas mães também. Mas… essa fala tão realista gerou polêmica.

Oras. A maioria das minhas amigas (e eu também) seguem a filosofia Zeca Pagodinho na vida, aquela que diz "deixa a vida me levar". Algumas delas, nesse meio tempo, tiveram filhos porque isso rolou, deu vontade, aconteceu, apareceu o cara certo. Outras, como eu, não tiveram, porque não rolou. Simples assim.

Existem, claro, algumas que sempre quiseram ser mães. E foram (que ótimo). E existe ainda um outro grupo: o das mulheres que ODIAVAM a ideia de ter filhos com todas as forças e…. por essas voltas da vida… tiveram.

Eu tenho uma amiga que sempre foi famosa pelas piadas que fazia sobre mães. Ela dizia sentir pena de mães carregando bebês. "Acho triste a imagem daquela fraldinha pendurada", ela dizia, exagerando e divertindo todo mundo. Bem, essa amiga engravidou. Nem era o plano. Hoje ela é uma ótima mãe e está feliz da vida.

Existem vários tipos de mulheres, sendo elas mães ou não, certo?

O que assusta é que a declaração sensata de Sabrina ainda cause susto e que as pessoas, no fundo, ainda acreditem que toda mulher sonha em ser mãe.

Segundo dados do IBGE de 2010, 15% das mulheres brasileiras não sonham em ser mães. O número cresceu 5% desde 2000, o que já faz a gente imaginar que será ainda maior em 2020. Vou além e penso que muitas responderam sim sem pensar, simplesmente porque é o que se espera que uma mulher responda.

E tem um detalhe que os números não contam, e que Sabrina deixa muito claro em sua declaração: os sonhos mudam. Eu mesma já não quis ser mãe, depois quis, depois não quis e… não fui. Se isso é um grande problema na minha vida? Não. Se às vezes eu penso que seria legal ter tido filho? Sim. Mas não rolou, beleza.

Nem todas as mães são felizes

A ideia de que todas as mulheres sonham em ser mães (e eu tenho várias amigas que, ao contrário de mim, NUNCA tiveram essa vontade) faz mal para todas nós, acho: mães e não mães. Nós, sem filhos, muitas vezes achamos que perdemos o grande milagre da vida, nos sentimos incompletas, pela tal pressão da sociedade. E ainda temos que ouvir de umas amigas da onça: "você não sabe, você não é mãe" (mães, não digam isso para mulheres sem filho, a gente tem, sim, a capacidade de pelo menos tentar nos colocar no lugar de vocês, o nome disso é empatia).

E embaralha também a cabeça das mães, que se sentem culpadas se não veêm as tais estrelas, se não acham que a vida mudou e descobriram o sentido da vida. O que não quer dizer que elas não gostem dos filhos, elas só têm uma visão menos romântica. As pessoas são diferentes, repito. Não somos robôs que nascem programados com a função bebê. Até quando vamos ter que explicar isso?

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.