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Nina Lemos

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Deputado diz que mulher provoca estuprador com decote. Nos querem de burca?

Nina Lemos

2011-05-20T19:04:00

11/05/2019 04h00

 

Vão apontar de qualquer jeito, né? (iStock)

Culpar uma mulher estuprada dizendo que a roupa dela era muito curta é um cliché tão antigo e sem sentido que, em geral, é usado como metáfora. Quando queremos falar de algo absurdo, usamos esse exemplo: "ah, isso é igual culpar uma mulher porque a roupa era curta." Pois bem, no país do retrocesso em que viemos parar em 2019 isso saiu, literalmente, da boca de um deputado.

"Se você quer andar com sainha, decote, ótimo. Se você quer chamar a atenção de estupradores, você sabe o risco que está correndo. Se você se deparar com essa situação, lamento". O absurdo foi dito pelo deputado do PSL, Jessé Lopes, no microfone, no plenário da Camara dos Deputados de Santa Catarina.

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Isso dito por qualquer pessoa já seria absurdo. Por um deputado, é desesperador. Um parlamentar é um "representante do povo", uma autoridade, que deve ter "decoro". E, claro, quando uma autoridade fala uma coisa dessas, ele dá exemplo. Vários homens se sentem autorizados para pensar e agir assim. Afinal, "até o deputado disse". E libera, também, estupradores a atacarem mulheres de decote, sainha ou shortinho.

Há anos as mulheres lutam para provar o óbvio: roupa e attitude não têm nada a ver com assédio e estupro. Homens estupradores são criminosos. E não, a culpa não é nossa. Homens não são animais incontroláveis, incapazes de ver uma mulher de roupa curta sem se controlar e se jogar em cima delas.

Culpabilizar a vitima por qualquer tipo de agressão é errado e injusto. Há anos repetimos que podemos usar a roupa que quisermos. E, pensem bem, não é ridículo ter que lutar, fazer passeata e brigar por uma coisa simples como poder usar a roupa que quer sem correr o risco de passarem a mão na sua bunda, falarem coisas desagradáveis ou ter medo de ser estuprada?

Homens, por favor, se coloquem no nosso lugar. Pensem se para pegar um ônibus vocês tivessem que se arrumar meticulosamente, colocando uma camiseta larga para evitar ser encoxada, bolinada, abusada? Se na hora de andar de noite, você tivesse medo ao ouvir passos e ver que atrás de você está um homem? Horrível, não? Pois essa é a nossa vida no país em que 60 mil mulheres são estupradas por ano (segundo dados de 2017). Ano passado, só no estado de São Paulo, 32 mulheres foram estupradas por dia. São números alarmantes, que preocupam entidades pelos direito das mulheres no mundo todo.

Brasileiro mediano

Pior é ver que o deputado pensa como muitos. Segundo pesquisa realizada ano passado pelo DataFolha, um em cada três brasileiros acredita que, em casos de estupro, a culpa é da mulher. Sim, nós seríamos culpadas por sofrer uma das piores violências que somos capazes de imaginar! Culpadas por seremos vítimas daquilo que mais tememos!

O deputado Jessé seria apenas mais um lamentável cidadão mediano se ele não fosse um deputado eleito. E que fala isso ao microfone, para quem quiser ouvir. Uma atitude inconsequente e perigosa que deve ser condenada não só por nós, mulheres, mas também pelos homens. Eu sei que vocês não querem que suas familiares e amigas corram risco ou  sejam culpabilizadas por usarem  a roupa que querem. E nem que a gente seja obrigada a usar burca para "ajudar" os "pobres homens a se comportarem". É surreal. Mas, do jeito que as coisas andam, não parece tão distante assim…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.