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Macron: as mulheres brasileiras não estão com vergonha, mas com raiva

Nina Lemos

28/08/2019 04h00

Nicholas Kamm / AFP

"É triste, triste para ele e principalmente para os brasileiros. Acho que as mulheres brasileiras devem estar com vergonha". Quem disse isso foi o presidente francês, Emmanuel Macron, depois de Bolsonaro fazer uma "piada" sobre sua esposa no Twitter.

Para quem estava em uma ilha sem internet nos últimos dias: um admirador do presidente postou na página oficial do presidente uma montagem de fotos comparando as duas primeiras damas e disse: "Entende agora porque Macron persegue Bolsonaro?" Já seria lamentável. Mas para piorar (muito) as coisas, o presidente do Brasil foi lá e comentou: "Kkkk. Não humilha." 

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Sim, vergonhoso, ultrajante e triste. Mas queria dizer uma coisa para o presidente da França:  Macron, eu e muitas mulheres brasileiras (segundo pesquisa do Datafolha de abril, apenas 28% das mulheres aprovam o governo Bolsonaro) mais do que sentir vergonha, temos raiva.

Sentimos raiva de ver o presidente tratando a esposa de um chefe de Estado desse jeito. E teríamos também se fosse com qualquer outra mulher.  Tratar mulher assim é ofensivo não só para Brigitte, mas para todas nós, inclusive para Michelle Bolsonaro.

Sim, a primeira-dama Michelle não merece ser tratada como se fosse um carro "mais novo" e mais bonito. Ela é uma pessoa. E, falando nisso, que tal a gente parar de fazer comparação entre as duas? 

Desde o momento dessa declaração terrível do presidente, muitas pessoas começaram falar que era melhor ser casado com  Brigitte, inteligente, do que com a Michelle, fazendo uma espécie de competição entre primeiras-damas.

Gente, fazer competição sobre mulher? Sério?  Não estamos mais na quinta série.  E estamos falando de uma briga diplomática por causa dos incêndios da Amazônia, não de um concurso de Misses! As esposas não têm nada a ver com isso. 

Você não é mãe dele para ter vergonha

Muitas de nós estão, sim, com vergonha. Meu conselho: não fiquem. A gente já carrega culpa demais. Vamos ser culpadas agora pelo que o Bolsonaro fala? Eu não votei nele. Muitas mulheres também não. Se você votou, entendo a sua vergonha. Mas também acho que você poderia trocar a vergonha pela raiva, que é mais produtiva e faz a gente gritar que não aceita esse tipo de comportamento vindo de um chefe de Estado (e de qualquer outra pessoa).

E vamos lembrar que muitas de nós têm raiva de Bolsonaro faz tempo, desde que ele começou a fazer declarações contra mulheres e gays.  Tanto que fomos, aos milhões, antes das eleições, gritar #EleNão.  Sim, o movimento contra Bolsonaro foi um movimento criado por mulheres e abraçado por milhares de homens. Foi uma iniciativa feminina! Mulheres de todas as idades lotaram a rua, com crianças, idosas…

Por que mulheres fizeram esse movimento? Porque não queriam um presidente que tinha posições machistas e que já tinha dito frases como:

A gente já esperava que não seria bom para as mulheres, mas, claro, a gente nem podia imaginar que seria tão ruim.  Então, não temos mesmo motivo para vergonha, mas para raiva.

Passamos raiva quase que diariamente. Como quando o presidente comparou o Brasil a "uma virgem que todo tarado quer." Que comparação é essa, gente?

 E ficamos profundamente irritadas quando o presidente disse: "o Brasil não vai virar um paraíso gay, mas se você quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique a vontade."

Isso nos chateou muito porque o Brasil tem um problema seríssimo de exploração sexual infantil, que precisa ser duramente combatido e estamos cansadas do estereótipo de que mulher brasileira é uma bunda que rebola. Por isso, não gostamos nada do novo slogan da Embratur que diz: "Brazil, visit and love us" (Brasil, visite e nos ame). Achamos que isso tinha uma conotação sexual.  Gostamos de sexo, respeitamos as prostitutas e seus direitos mas não somos mercadoria que o nosso presidente pode tratar como atração turística ou bem de consumo a ser "desfrutado".

Muitas de nós, ontem, pediram desculpas para Brigitte na internet usando a tag #DesculpaBrigitte, que entrou nos trend topics do Twitter.  Muito bonito que as pessoas peçam desculpas e mostrem para Brigitte que ela não está sozinha, que ela tem apoio. Mas acho que quem deveria pedir desculpas é ele, Bolsonaro. Só que ele não vai pedir (ao contrário, ele disse que espera desculpas do presidente da França). Não somos mães dele, que também não é criança, e não podemos obrigá-lo.

Acredito que Brigitte também deva ter ficado com raiva. Por isso, em vez de pedir perdão, mando um recado: junte-se a nós! Estamos juntas. Sabemos (infelizmente) como é o sentimento de se sentir desrespeitada por Jair Bolsonaro, já que vivemos essa realidade quase todos os dias. Entendemos sua raiva, Brigitte.  Nós também nos sentimos agredidas por Bolsonaro. De coração. Estamos juntas.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos