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Nina Lemos

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Meghan Markle sofre bullying da mídia e amigos denunciam racismo. Surpresa?

Nina Lemos

07/10/2019 07h00

Getty Images

Quando Meghan Markle se casou com Príncipe Harry, em maio do ano passado, muitas pessoas, emocionadas, viram ali o início de uma nova era. Não sem motivos. Afinal, finalmente a família real britânica tinha uma mulher de ascendência negra entre os seus, um passo e tanto. Muitas meninas do mundo inteiro viram ali um exemplo. Elas também podiam ser como Meghan. O mundo, de alguma maneira, até em espaços super conservadores como a família real britânica, estaria ficando menos racista.

Infelizmente, não é tão simples. Meghan, que foi alvo de bullying e de ataques racistas desde que seu namoro com o príncipe Harry foi anunciado, agora tem sofrido um massacre da imprensa sensacionalista inglesa. Ela virou o alvo preferencial. Segundo alguns jornais britânicos sérios, o que está acontecendo é um ataque de ódio contra ela. Um ataque racista.

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Tudo que ela faz é criticado. Ela seria muito arrogante. Ela seria muito metida. Ela usaria roupas caras. Ela faria o absurdo de andar de avião. A pergunta é: e os outros membros da família real? Eles não fazem o mesmo? Por que só Meghan não poderia? Alguém leu o mesmo tipo de ataque endereçado a Kate Middleton, a esposa de príncipe William?

Como disse uma amiga minha negra… é óbvio: A duquesa não recebe o mesmo tratamento porque é negra. Meghan é filha de uma mulher negra e de um homem branco. E já foi descrita no Reino Unido, antes de casar, como, "alguém de uma raça exótica."

Quem pensava que o casamento poderia acabar com esses ataques se enganou. Eles se intensificaram. A imprensa sensacionalista inglesa parece gritar todo dia para Meghan: "ei, como você se atreve a ter casado com um dos nossos!"

Sim, nojento.

Quebra de protocolo

A situação chegou em um ponto que o príncipe Harry quebrou o protocolo e escreveu semana passada uma carta apelo, divulgada no site oficial da família real. Isso aconteceu depois que o tabloide "The Mail on Sunday" publicou trechos de uma carta que Meghan escreveu para seu pai depois de casar. Harry chegou a comparar os ataques sofridos por Meghan com os sofridos pela princesa Diana.

"Infelizmente minha mulher se transformou em a última vítima dos tabloides ingleses, que fazem campanhas contra indivíduos sem pensar nas suas consequências, uma campanha cruel que aumentou no último ano, durante sua gravidez e enquanto ela está cuidando de um recém-nascido." E completou: "Meu maior medo é ver a história se repetindo… eu perdi a minha mãe e agora eu vejo a minha esposa sendo alvo das mesmas forças poderosas." O casal resolveu processar o jornal.

Quando ele fala em perigo, não está exagerando. 

 em uma reportagem sobre um grupo neonazista, uma mensagem do grupo que dizia que Harry deveria tomar um tiro por ser um "traidor da raça". Sim, assustador. 

Mas, claro, existem formas menos "violentas" de racismo. Mais sutis, mas não por isso menos agressivas e horríveis. como o de um programa exibido na Austrália sobre Meghan mês passado, onde ela foi descrita como "uma ninguém que usa roupas ruins" e chamada de "monstro". Celebridades como Mia Farrow vieram em defesa de Meghan. Mia disse que os apresentadores do programa eram "lixo racista."

Na internet, amigas de Meghan a defendem e acusam a sociedade inglesa de racismo. Caso da atriz Jameela Jamil, que, enquanto a duquesa e o marido eram atacados por usar um jatinho, escreveu no Twitter: "querida imprensa inglesa, apenas digam que vocês a odeiam porque ela é negra. E que odeiam ele porque ele se casou com uma mulher negra."

Os ataques, pelo jeito, estão longe de ter fim. E o pior de tudo é a gente olhar para isso e pensar: "mas alguém está surpreso?" Infelizmente, acho que só quem é muito inocente. Infelizmente, por mais que algumas coisas avancem, boa parte das pessoas ainda vive imersa em preconceitos criminosos. Força, Meghan!

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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