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Greta, 16, alvo de bullying de homens de meia idade. Quem tem "problema"?

Nina Lemos

27/09/2019 04h00

 

"Retardada mental". "Feia com um cabelo de milho". "Ela precisa de um namorado. Isso é falta de sexo".

As frases de ódio e preconceituosas foram usadas nos últimos dias para atacar uma ativista. Só que, no caso, ela é uma menina de 16 anos. Greta Thunberg, ativista sueca, ficou famosa do mundo todo por seu ativismo contra o aquecimento global. Você não precisa ser fã da Greta. Mas, uma coisa, óbvia, deveria estar clara. Ela é uma menina de 16 anos, menor de idade. E, além disso, ela é portadora da síndrome de Asperger. E mesmo se não fossem esses "detalhes" ela devia ser respeitada porque, bem, ela é uma pessoa. E uma pessoa de destaque. Ela causou furor ao discursar essa semana na ONU. Seu discurso já é considerado por analistas internacionais um dos mais fortes da história da organização.

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Mas, esqueça. Todo o bom senso foi deixado de lado. E Greta está sofrendo bullying pesado no Brasil e fora dele. E não, não são adolescentes que o estão praticando. Mas homens adultos, de meia idade.

O radialista Gustavo Negreiros chegou ao cúmulo de dizer que todo o "problema" de Greta (bem, ela é uma ativista, não acho que ela tenha um problema, tem chance de ganhar um Nobel da paz, mas enfim) se resume ao fato de: ela sofrer de falta de sexo! "Ela precisa de homem, é falta de sexo que deixa ela histérica", disse o radialista do Rio Grande do Norte, na quarta-feira.

Bem, a falta de sexo (e, no fundo, o que querem dizer, é que mulheres precisam de "um homem") é um argumento muito usado por homens quando querem calar uma mulher. Isso sempre é revoltante. Mas, no caso, trata-se de uma menina de 16 anos, ou seja, alguém menor de idade. O bom senso (e a lei, sim, existe um Estatuto da Criança e do Adolescente) são deixados de lado em nome do ódio. Uma vergonha. A boa notícia é que esse locutor de rádio foi demitido. A má, é que os ataques (muitos deles sexuais e se referindo a aparência de Greta) não se resumiram a esse comentário infeliz. 

Longe disso. No Twitter, o cantor Roger Moreira fez uma "piada superengraçada" (#SóQueNão). Em um dos pontos do seu discurso na ONU, Greta disse: "vocês estão destruindo os meus sonhos." Pois Roger, um homem de 60 anos, postou uma foto de um desenho de uma médica sueca de peitões ao lado de Greta e escreveu: "isso sim é acabar com os meus sonhos de adolescência." Sim, um homem de 60 anos fazendo comentário sobre os atributos físicos de uma adolescente. Sua adolescência, Roger, em que mulheres eram resumidas a peitos, acabou. Ainda bem.

Outra coisa que esses adultos deveriam saber é que não se brinca com o fato de alguém ter uma condição especial. Mas, sim, lá foi um jornalista, adulto, falar na rádio Jovem Pan que ela era … "retardada".  

O bullying não acontece só no Brasil, claro que não. A emissora americana teve que pedir desculpas depois de um convidado de um programa chamar Greta de "doente mental".

Essas pessoas não tiveram educação? Não aprenderam que síndromes ou qualquer tipo de coisa que faça de alguém especial pode ser alvo de piada? Ou será que Greta, por ter 16 anos, fez com que todos eles voltassem a se sentir meninos de 13 anos da década de 80 na escola?

Talvez seja apenas inveja. Afinal, todos eles, adultos, cheios de sabedoria, talvez achem que quem deveria estar discursando na ONU são eles, e não uma menina, olha só, que audácia, de 16 anos! 

Lugar de menina, para eles, pelo jeito é aplaudindo o homem. E que seja bem comportada e com a beleza que eles acham que precisa ter. Nesse caso, perderam, playboys. Vocês não são obrigados a aplaudir Greta, claro que não. Mas precisam ter um revival de bulliyng da sétima série? Está ficando ridículo para vocês. E, Greta, ela, de 16 anos, estudante, autista e portadora de uma síndrome, está mostrando ser bem mais madura. Não tem como negar.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos