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Nina Lemos

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Goleiro Bruno volta ao campo aplaudido. Tem como achar isso normal?

Nina Lemos

09/10/2019 04h00

(Ricardo Benichio/Folhapress)

"Todo ser humano é falho e tem a sua condição e acertar muitas coisas e errar."A declaração é do presidente do time Poços de Calda, Paulo César da Silva, que contratou goleiro Bruno para ser seu jogador de destaque.

Sim, o jogador fez sua estreia no sábado com status de estrela. Bruno é aquele, o que foi condenado a 20 anos e meio de prisão por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver da ex namorada e mãe de seu filho, Eliza Samudio.

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 É impossível não lembrar de detalhes aterrorizantes do crime, que aconteceu em 2010, como o fato do corpo de Eliza ter possivelmente sido esquartejado e jogado para cachorros. Bruno, condenado em 2013,  recebeu progressão da pena e direito ao regime semi-aberto em julho e cumpre prisão domiciliar em Varginha. Casou de novo e tem uma filha.

A história de Bruno é assustadora, um filme de terror. Ao lembrar dos detalhes, qualquer pessoa normal sente enjoo. Mas, sábado, vimos o seu nome voltar  ao noticiário com uma naturalidade chocante: ele voltou aos campos de futebol, contratado pelo Poços de Caldas. No primeiro jogo, que aconteceu no sábado, segundo reportagem do UOL, não encontrou nenhum protesto. Muito pelo contrário. Ele foi ovacionado. Posou para selfies com fãs, seu nome foi gritado como se ele fosse um ídolo.

Bruno, vamos repetir, foi condenado por mandar matar a ex e ocultar seu cadáver.  Nove anos depois, está exibindo moletom da Supreme (a marca preferida dos jogadores ricos, uma peça que custa no mínimo R$ 1 mil), posando para fotos carregando a filha nova no colo e sorrindo como se nada tivesse acontecido.

O que Bruno cometeu foi um erro?

Segundo os torcedores do time, ele teria cometido um "erro" ou teria problemas extra-campo. Mas, enfim, deixem esses "detalhes para lá". Ele é bom jogador de futebol e faz um bom marketing. 

Sim, claro que ele funciona como marketing.  Eu não estaria falando sobre o clube Poços de Caldas se eles não tivessem contratado o goleiro Bruno. E nem de futebol, assunto que não é a minha área. 

Mas de uma coisa eu sei: goleiro Bruno não cometeu "erros". Ele foi condenado por um assassinato! Um crime com muitos requintes de crueldade. Erro é o que cometemos nós, todos os dias, como dar um fora no trabalho, falar com alguém em um tom agressivo, perder a paciência. Assassinato de uma mulher não é um "erro" ou "probleminha", mas um crime terrível que, por mais que seja comum no Brasil, não pode ser naturalizado.

E não, não é possível que ter a imagem de um assassino de mulheres condenado associada a um time seja uma coisa positiva! A não ser, claro, que o assassinato de mulheres no Brasil seja uma "bobagem", uma coisa qualquer, uma "pisada na bola". A volta do goleiro Bruno, infelizmente, faz a gente ter essa impressão.

Sim, existe uma lei que deve ser cumprida. Segundo a lei, presos podem ter progressão de pena e ter direito à ressocialização. Mas a parte do bom senso na hora de cumprir a lei fica com a sociedade, certo? 

A nossa, pelo jeito, falhou de novo e pode transformar Bruno em ídolo-criminoso, como se ele não tivesse feito nada. Os torcedores, por enquanto, aplaudem um assassino e levam seus filhos para tirar foto com ele. Chocante. Alguns colegas jornalistas fazem a piada: "goleiro matador". Não, não tem graça.

Ídolo?

Mesmo que Bruno seja o melhor jogador de todos os tempos, ele é um assassino condenado por um crime cruel. Não tem como jogar isso embaixo do tapete e fingir que nada aconteceu! 

E tem mais: jogadores de futebol são ídolos não só porque são bons jogadores, mas por causa do comportamento, do jeito que jogam, que falam, do corte de cabelo. Na hora em que um time o contrata (e na posição de destaque do time), muitos jovens torcedores (no caso, crianças) podem voltar a idolatrar um jogador que é um assassino.

Essa não é a primeira vez que Bruno é convidado para jogar. Em 2014, ainda em regime fechado, ele foi contratado pelo  Montes Claros. Não conseguiu liberação e nunca chegou a entrar em campo. Em 2017, recebeu habeas corpus e foi contratado pelo Boa. Disputou cinco partidas e, no fim, o clube foi alvo de protestos e perdeu todos os patrocinadores. Bruno teve a volta à prisão determinada pelo STF.

E agora, será que não vai acontecer nada? Já esquecemos?

O Brasil é um país com números assustadores de casos de violência contra a mulher. A cada 8 horas uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil, segundo o Anuário Nacional de Segurança Pública. A cada 4 minutos, uma mulher é agredida

Na hora em que vejo o goleiro Bruno sorrindo, não consigo não pensar em todas elas. Como uma pessoa vai acreditar em justiça e denunciar o namorado que agride se mesmo um cara que matou a ex-mulher e jogou seus ossos para os cachorros hoje está rindo à toa e tem uma plateia gritando seu nome em tom de homenagem? Como os familiares de vítimas de feminicídio vão acreditar em justiça?

Bruno, quando ri para as câmeras, ri da cara de todas nós.

Ah, detalhe: a volta do goleiro Bruno foi notícia na mídia internacional. O seu retorno foi destaque no maior jornal da Alemanha, o "Bild". No jornal, eles perguntam como que um matador de mulheres volta a jogar futebol com título de ídolo? Só resta repetir a pergunta: como?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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