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Mulher tem vergonha de pedir aumento, homem acha maneiro. Vamos mudar isso?

Nina Lemos

11/10/2019 04h00

People Images/ Istock

Vocês já pediram aumento no trabalho? Parece uma pergunta óbvia, e que toda mulher com mais de 40 vai responder: sim, claro! Mas não. A gente, mulher, não está acostumada a pedir aumento e nem a se valorizar. Até para isso, uma coisa casual da vida pela qual todo mundo passa, a gente tem que ter feito terapia, ter grupo de apoio, amigas para desabafar. Pedir aumento sempre foi difícil para mim e para minhas amigas. 

Dos amigos homens, em geral, os que não se acham assim tão merecedores, são gays. Os homens héteros em geral sempre aceitaram ganhar bem. Afinal, eles merecem. Mesmo quando são mais medíocres do que as mulheres que trabalham perto deles (e são melhores). Essas experiências são coisas que eu vi em mais de 20 anos de carreira. Algumas são até engraçadas, como amigas que, após receberem uma proposta econômica de trabalho falaram coisas do tipo: "nossa, tá ótimo", impedindo assim que qualquer outra negociação melhor acontecesse nos próximos anos. 

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Hoje, li duas pesquisas que confirmaram minhas impressões. Uma, realizada pela Campanha "Good Money Week" e publicada no jornal "Independent", disse que apenas um quarto das mulheres inglesas já pediram aumento no trabalho. 25%, gente! É muito pouco. Não existe essa pesquisa no Brasil, mas acho que os números podem ser ainda piores.

Eles dizem também que, enquanto as mulheres se sentem culpadas  (quem sou eu para merecer?) e com vergonha de pedir aumento (vai parecer que eu me acho?) os homens se sentem empolgados e animados com a situação. Eu, aqui do meu canto feminino culpado, nunca imaginei que alguém nesse mundo gostasse de pedir aumento. Mas, segundo a pesquisa, essas pessoas existem. E são homens.

A pesquisa mostra também que, em um grupo de 2000 pessoas, 41% dos homens pediram aumento nos últimos seis meses. No caso das mulheres, o número cai para um quarto.  50% dos homens são tão corajosos que pedem aumento mais de uma vez por ano. Só 8% das mulheres fazem isso.

Síndrome do impostor

Todas trabalhadas na síndrome do impostor ("eu não mereço", "eu não sou tão boa", "por que me deram esse emprego?", "eu não vou ser capaz!", "as pessoas acham que eu sou boa, mas é mentira", "uma hora vão descobrir que sou uma farsa") em geral achamos que se conseguimos um emprego "já está bom".  E se somos boas, em geral fazemos pouco disso. Se recebemos um elogio, muitas vezes dizemos: "que é isso, gente, eu não sou isso tudo". Eu sou mestra em fazer isso. A vida toda.

Pois não é que uma outra pesquisa confirmou que eu não sou a única a ter esse tipo de atitude? Na Harvard Business of School, na Universidade da Pensilvânia, eles descobriram que na hora de avaliar suas perfomances no trabalho, as mulheres davam a si mesmo notas piores do que os homens se davam.

Na hora de fazer uma entrevista para uma promoção ou novo emprego, por exemplo, as mulheres tendem a fazer pouco das suas habilidades. E a dar um feedback pior das suas experiências anteriores do que os homens.

Sim, nós mesmas ajudamos a criar diferenças de gênero na hora de nos autopromover, e receber o reconhecimento (econômico ou moral) que merecemos. De novo, não estou surpresa. Quantas vezes falamos sim para uma grana em um trabalho que, na verdade, é péssima? E quantas vezes temos coragem de falar: "não, esse cachê está baixo, precisa ser mais?". 

Quando conseguimos, em geral (falo por experiência própria e de amigas) começamos a elencar motivos pelos quais precisamos do dinheiro (porque, pobres coitadas, olha como temos boletos). Raramente conseguimos falar que precisamos ganhar mais porque… somos boas no que fazemos, oras, tão simples.

Raramente ouço uma mulher dizer: "eu entendo tudo desse assunto" (mesmo que elas entendam). No caso de homens héteros bem criados e nascidos, bem, não sei contar quantas vezes já ouvi isso. E, muitas vezes, eles nem sabiam tanto assim.

Por isso, hoje, quando preciso me valorizar, ou uma amiga precisa pedir aumento e está com medo, eu quase obrigo a pessoa a fazer. Se lutamos por igualdade, a gente tem que dar um jeito de jogar a síndrome de impostor de lado e falar: EU MEREÇO. EU POSSO. EU SEI. E, sim, eu mereço ganhar mais. Se apenas 25% das mulheres conseguem pedir aumento, bem , pedir e encorajar outras a pedir é… não só sobrevivência, mas uma questão política.

Se vamos nos sentir culpadas por pedir aumento? Provavelmente sim. Mas, quem sabe, um dia a gente não chega lá e para de reproduzir esses comportamentos? Sim, a gente merece.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos