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Nina Lemos

BBB: Marcos Harter e Guilherme mostram como abusadores se fazem de vítimas

Nina Lemos

03/03/2020 13h33

"Escuta aqui! Escuta aqui!" quem assistiu o BBB de 2017 deve se lembrar da cena terrível em que um homem, o médico Marcos Harter, acuou a então namorada Emily em um canto, no meio de uma discussão e, com a voz completamente alterada, como se tivesse virado outra pessoa, berrava com o dedo na cara da menina. Foram cenas que deram dor  no estômago de quem assistiu e pelas quais ninguém devia passar (ou ver ao vivo na TV). Como as coisas mudaram (e hoje a audiência cobra, sim, que medidas sejam tomadas), Marcos foi expulso da casa. Era o mínimo a ser feito.

Pois bem, eis que agora Marcos, que ficou conhecido na internet como Marcos Hater, está processando a Globo. Sua carreira como médico, diz ele, foi arruinada. As mulheres, suas maiores pacientes, não confiam mais nele. Ó, coitado. Ele agora quer receber da Globo uma indenização de 750 mil reais. Sim, ele quer  ser recompensado por ser punido por atitudes que ele mesmo teve!

VEJA TAMBEM

Marcos se faz de vítima. Uma atitude comum entre abusadores, que usam a desculpa até para matar. "Ela me enlouqueceu". "Assim você vai me prejudicar," "você é louca", "fui vítima de uma maluca" e por aí vai. Se isso nunca aconteceu com você, provavelmente você já viu uma amiga passar por isso…

Guilherme x Gabi

Pois bem, o abuso, tanto na TV como na vida real, é uma realidade que não mudou.  A atual edição do BBB o mostra de novo, em cores, e ao vivo. Esse ano, o casal com relacionamento abusivo é formado por Guilherme e Gabriela. O abuso aqui é um pouco mais "sutil". Não existem tantos gritos, mas um namorado que faz tortura psicológica com a namorada, que sente que ela "o está prejudicando", que cobra quando ela não está com ele, mas com outras pessoas da casa. Que a afasta de outras mulheres e, claro, a culpa. E, como não podia deixar de ser, fala que ela está vendo coisas, que tudo está "na cabeça dela". Ou seja, tenta convencê-la de que ela é louca.

Atenção: esse é um roteiro básico de abuso! Se estiver acontecendo com você, caia fora!

Assim como Marcos, Guilherme também se faz de coitado. Um dia desses, disse para a namorada, que ela parasse de chorar. "Assim você me prejudica!". Ou seja, não se preocupou com o fato da moça estar chorando, mas apenas consigo mesmo. "O que vão pensar de mim?". Gabi, acuada, obedeceu. Foi chorar no banheiro. 

Boa parte de público pede para que Guilherme seja tirado da casa para que Gabriela, que além de tudo sofre de depressão, seja afastada de um relacionamento abusivo. A hashtag #guilhermeabusador se espalha pelo Twitter. Alguma dúvida de que se ele sair (porque ABUSOU, porque não foi legal com a namorada e o público viu, ou seja, pelos seus próprios atos) ele também vai se fazer de coitado?

Recentemente, o goleiro Jean, acusado de espancar a ex esposa, escreveu  para mulher em que é acusado deu socos na cara: "você quer acabar com a minha carreira!

 Sim, são casos diferentes. Aqui, houve agressão física. Mas a conversa é a mesma. Eu abuso, e, no fim, eu sou prejudicado pelos "outros."

Ora, você, abusador, é prejudicado por você mesmo. Paga? Sim. Mas pelos seus atos. Sofrer baques na vida pessoal e profissional depois de ter um abuso punido (ou visto por todo mundo, como é o caso do BBB) não é culpa da TV Globo, dos espectadores, e muito menos da mulher abusada. Marcos e Guilherme podem até tentar o golpe de "coitados". Não vai colar. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.