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Por que Manu Gavassi incomoda tanta gente?

Nina Lemos

31/03/2020 11h12

"Não assisto o BBB, mas tenho observado algo, marcaram-me em vários posts sobre isso. Tem uma militante de esquerda concorrendo com um cara que é politicamente incorreto e ganhou apoio de quem odeia mimimi, muitos jogadores de futebol, por exemplo. Então, boa sorte, Prior". A frase foi publicada ontem no perfil do Twitter de Eduardo Bolsonaro, o 03, deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro. 

Sim, em um momento em que o Brasil enfrenta uma enorme crise de saúde e política, com o presidente cada vez mais isolado e com os casos de contaminação por coronavírus aumentado no país, Eduardo, que devia estar ocupado defendendo o pai ou sendo deputado, resolveu falar de BBB. 

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Uma rápida contextualização para quem não sabe: Felipe Prior, um arquiteto de 27 anos com atitudes machistas, ou seja, um brasileiro "médio" daqueles que todo mundo tem na família, está numa disputa acirrada no paredão do BBB desta terça-feira com Manu Gavassi, uma jovem cantora de 27 anos que tem atitudes feministas. E esse "confronto" é o assunto do momento.

Alguma surpresa pelo fato do deputado federal se meter no BBB? Nenhuma por aqui. Como todos sabem, a família do presidente e seus seguidores têm ódio do politicamente correto. Para eles, esse é um inimigo terrível que deveria ser combatido. Eles também odeiam "mimimi", uma palavra que, para eles, tomou o sentido de reclamar que existe racismo no Brasil, por exemplo. Reclamar do machismo? "Ah, para de mimimi!". 

Manu não é "militante de esquerda" nem de longe e nem tem nada de radical. Ela é uma garota de 27 anos, cantora, influencer, branca, bonita. Manu tem discurso feminista antenado, é amiga de Bruna Marquezine e não costuma levar desaforo para casa. No programa, junto com outras meninas, formou um grupo que usa palavras como "sororidade" e discute temas do feminismo atual. Mas é só isso. Ela não é a nova Gloria Steinem nem uma Rosa Luxemburgo. 

Mas essa menina de apenas 1,55  e 27 anos incomoda. E muito! O que chega a ser chocante, já que ela não tem nada de ameaçadora ou de radical. Pelo contrário.  

Mesmo o feminismo light da cantora parece ser assustador para certos caras. E despertou uma corrente até entre os jogadores de futebol brasileirosPara justificar o ódio (e fazer com que ela saia do programa), foi recuperado no Twitter um post da cantora onde ela falava que não gostava de futebol. Sim, ela foi acusada desse crime (contém muita ironia).

Esse foi o argumento para que jogadores como Gabigol, Richarlison, Dentinho e outros postassem vídeos e posts de apoio a Prior. Será que esses caras amam tanto assim o "brother"? Pode ser, ele é um pouco parecido com eles.  Mas, na verdade, acho que eles (como Eduardo Bolsonaro deixou bem claro) odeiam a Manu e tudo o que ela e outras garotas assim representam. 

Manu é de uma geração de mulheres que deixa claro para os homens que eles não podem fazer o que bem querem, não podem ser folgados. Deve ser chato mesmo para homens assim — acostumados a levantar voz para mulher, não ajudar nas tarefas de casa, enfim,  são babacas sem nunca serem repreendidos por isso — dar de cara com meninas como Manu e tantas outras como ela.

Tão difícil que eles estão desesperados, apelando até para o fato de uma mulher gostar ou não de futebol. E depois são as mulheres feministas que adoram um mimimi… Força, guerreiros!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos