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Nina Lemos

Felipe Prior: depois de ser acusado de estupro, ele tem mais sucesso. Como?

Nina Lemos

16/04/2020 04h00

Reprodução

Depois de sair de um reality show, um homem é acusado de estupro por várias mulheres. O que acontece com ele? Manifestações de terror, pedidos de desculpas por parte da emissora e dos torcedores? Bom, isso seria o mais lógico. 

Mas é o contrário do que tem acontecido com Felipe Prior, que deixou o BBB no dia 31 de março. Três dias depois,  a revista "Marie Claire" publicou depoimentos de mulheres que disseram já ter sido estupradas por ele. No momento, uma investigação corre em segredo de justiça.

É cedo para chamá-lo de culpado, já que o processo não terminou. Mas também é cedo para achar que as quatro mulheres que deram detalhes do ocorrido para a revista mentiram, em uma espécie de complô para prejudicar o arquiteto. 

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O bom senso pede que o caso seja olhado com atenção, cuidado e calma.

Mas, menos de duas semanas depois das acusações, Felipe Prior  já virou um case de sucesso. A cada dia, ganha 100 mil seguidores no Instagram, rede social que pode ser usada para medir sucesso de famosos. No momento, ele é o participante do BBB 2020 que mais teve aumento percentual de seguidores. Conta com seis milhões. Só pede para a sua rival Manu Gavassi, que já era famosa antes.  

Seus fãs são apaixonados. Na quinta-feira, eles subiram a tag #CalaABocaMarquezine no Twitter. Um dos motivos: as críticas que a atriz Bruna Marquezine, amiga de Manu, faz ao arquiteto desde os tempos do programa.

E Prior? Ele parece estar bem, curtindo a fama e os dias de herói. O arquiteto faz pose de que nada o abala e segue com sucesso a nova "profissão" de influenciador.

Em sua quarentena, faz stories, recebe mimos, troca mensagem com fãs e participa de lives, todas com muito sucesso. Basicamente, desfruta da fama recente como se nada tivesse acontecido. Parece estar adorando ter virado famoso. E, claro, ele recebe tantos elogios que deve estar realmente se achando o máximo.

Mas, espera. As pessoas que os seguem e o veneram já esqueceram que ele foi acusado de estupro, que um processo corre na Justiça?

Uma amiga fã de BBB me explica que não, pelo contrário. As pessoas lembram, mas veem Prior como um injustiçado, uma vítima — sim, uma vítima (e não um acusado), um pobre coitado perseguido por mulheres que querem "se aproveitar." 

Temos certeza de que ele é culpado? Não. Mas também não temos certeza de que ele não cometeu algum desses crimes. 

Assim como deveríamos tomar cuidado na hora de acusar alguém até o fim do julgamento, temos que ter cuidado na hora de cravar a inocência. E, com isso, acusar as supostas vítimas de quererem aparecer com uma coisa tão dolorosa como ser estuprada. Quem está pensando nas mulheres que acusam Prior? E se for verdade (sim, é uma possibilidade), como elas estão vendo o carrasco dela sendo alçado a herói?

"Ah, mas e se for mentira?" Oras, nesse caso, a Justiça vai falar – e ele poderá até processar quem o acusou. Mas até lá, ele devia ficar no cantinho, não?

Como milhares de pessoas decidem que ele é inocente e ser acusado, repito, de estuprar três mulheres passa a ser um detalhe?

Estupro é coisa séria. Um crime que não pode nunca ser banalizado. Ser acusado de estupro pode aumentar a popularidade de alguém? Pelo jeito sim, infelizmente.

E, ah, não podemos esquecer, quando uma mulher denuncia estupro costuma ser atacada. Ela não vira heroína – por mais corajosa que seja a atitude de denunciar. O padrão é que o relato seja recebido com dúvidas e até questionamentos do tipo "você provocou", "quem mandou ir ao quarto dele" ou, no caso de homens famosos, "ela só quer se aproveitar da fama".

Ser acusado parece ser mais fácil.  Assustador. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.