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Nina Lemos

Coronavírus é controlado na Alemanha. O segredo do sucesso? Merkel

Nina Lemos

20/04/2020 04h00

Getty Images

Na manhã de sexta-feira (17/4), o Ministro da Saúde da Alemanha, Jens Spahns, deu uma entrevista coletiva com boas notícias (coisa rara no mundo atual). Ele se disse satisfeito com os números de crescimento do coronavírus do país. "As medidas que nós tomamos funcionaram", comemorou. Segundo ele, o surto está sob controle. No começo da epidemia, uma pessoa infectada contaminava entre cinco a sete pessoas. Hoje, infecta 0,7. Outro dado importante: por dois dias, o número de curados foi maior que o número de novos contaminados.

Como é possível? Bem, com isolamento social (com menos pessoas juntas, menos o vírus se espalha, meio simples, não?), um governo sério e cauteloso. Inclusive agora. Por isso, ainda é cedo para comemorar. Mesmo com as boas notícias, a Alemanha continua praticamente toda fechada, sem comércio, aulas, academia de ginástica ou direito de viajar.

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Há um mês, quando anunciou uo pacote de restrições chamado "Kontaktverbot" ("proibição de contato", em tradução livre), a chanceler Angela Merkel explicou com paciência que a ideia era achatar a curva de novas infecções, para que o sistema de saúde, apesar de muito bom, não ficasse sobrecarregado. Essa parte, por enquanto, funcionou.

Na quarta-feira, Merkel falou na TV de novo. Disse que estava "cautelosamente otimista". Mesmo assim, pediu mais paciência. Disse que não era para colocar todo o sucesso a perder. Por isso, estendeu as regras no mínimo até maio. A mudança é que algumas lojas serão abertas a partir de hoje. Ela também disse que, se tudo continuar como está, algumas as escolas devem voltar a ter aulas no início de maio. Mas é só. Por enquanto, a maioria da população faz home office, bares, restaurantes, cafés seguem fechados. Quando voltará ao normal? Ninguém sabe ao certo.

Uma coisa que chama atenção, ainda mais para uma brasileira que mora na Alemanha há cinco anos é a serenidade e a empatia com que Angela Merkel se dirige à população. 

Na última quarta-feira, disse que entendia as mães. Que sabia que era difícil para elas trabalharem com as crianças em casa e pediu paciência. Em um pronunciamento anterior, disse que era triste netos não poderem encontrar os avós e sugeriu que eles se falassem por carta ou pela internet. Os mais velhos não têm sido deixados de lado. E em nenhum momento o  governo disse "cada um que cuide do seu", como repete o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus apoiadores.

"A vida depois do Coronavírus será diferente", disse Merkel. E avisou que teremos que "aprender a viver com o vírus até uma vacina ser inventada.

Ou seja, não tem milagre, não tem remédio mágico nem como abrir tudo de repente como se nada tivesse acontecido. 

Como a Alemanha controlou o vírus?

A Alemanha é o quinto país com mais casos de coronavírus  no mundo (até sexta-feira, eram mais de 133 mil casos e quase 4 mil mortes). Mesmo assim, o país foi considerado o segundo lugar mais seguro em tempos de pandemia, só perdendo para Israel.

Como pode? Um dos fatores, ninguém duvida, é a própria chanceler, que soube tratar o assunto com seriedade e calma. Sua aprovação nunca esteve tão alta: hoje, 72% da população diz está satisfeita com um governo. Há 23 anos um governo da Alemanha não tinha tanta aprovação. 

Um dos motivos é que Angela Merkel é cientista. Sim, ela é formada em física, doutora em química e, importante, não nega a ciência. E, sim, ela sabe do que está falando. E, olha que incrível: mesmo sendo mulher, ela tem sido respeitada por isso.

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.