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Youtuber leva doméstica para o Einstein e cobra a conta. Cadê a noção?

Nina Lemos

03/07/2020 11h22

Reprodução Youtube

O Brasil é o país com mais empregadas domésticas no mundo. Não existe nenhum outro lugar onde seja normal você ter alguém morando na sua casa para arrumar sua cama e te pegar um copo de água. Essa realidade do Brasil, banalizada desde sempre, é uma anomalia.

Pois bem, a pandemia do Coronavírus tem exposto mais que nunca o quanto essas relações são abusivas. A primeira mulher a morrer de coronavírus no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica, contaminada por seus patrões. Agora, uma influencer com 2 milhões de seguidores, cujo namorado, que mora com ela, tem mais de 13 milhões de seguidores (basicamente a cidade de São Paulo) no Youtube aprontou mais uma para o episódio "Brasileiros ricos sem noção". Sunaika Bruna é o assunto da vez depois que sua ex funcionária, Regiane Roza, foi demitida no meio da pandemia (o que por si só já é uma coisa totalmente cruel de se fazer) e fez um vídeo contando o motivo de sua demissão. 

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Regiane passou mal na casa da patroa, onde morando estava com a filha, , no meio da pandemia. Ela desmaiou e foi socorrida pela patroa. Só que a moça a levou para o hospital Albert Einstein, uma instituição dos ricos de São Paulo, com preços proibitivos para qualquer pessoa que não seja rica. Regiane, claro, não tinha plano de saúde. Quando se recuperou, Bruna quis mandar a conta para o nome da doméstica, que obviamente não teria como pagar (assim como eu e voc⁄e tambem não teríamos). Segundo Regiane, depois dela se negar a assumir a conta,  teria sido demitida. 

Bruna não nega a história do Einstein, mas diz que demitiu a empregada por outros motivos e que disse para Regiane que arcaria com parte do custo e que o resto poderia ser parcelado pela funcionária.

Um aparte que até eu que não sou advogada sei. Se você passa mal no trabalho, a responsabilidade é dos seus patrões. Por que ninguém pensou ou discutiu a possibilidade da empregadora pagar o plano de saúde da empregada? Por que essas pessoas abastadas, que tratam as domésticas como "da família, como amigas" (e Bruna disse isso) não oferecem plano de saúde como empregadores de outras profissões?

Ah! Uma das coisas curiosas desse caso é o motivo dele ter vindo à tona. 

Seguidores de Bruna sentiram falta de Regiane nos vídeos. Isso porque seu conteúdo é basicamente cenas de sua vida. E, em muitos deles, estão Bruna com sua filha Joyce, uma criança. Ela teve que explicar porque a empregada tinha sido demitida. E disse que não ia contar as reais razões, que era pessoal. Mas disse também que tinha apagado todos os vídeos com Regiane e a bloqueado das redes sociais. Então, Regiane resolveu contar seu lado da história.

Branca salvadora

Mas Bruna não apagou todos os vídeos. Em um deles, chamado, "Comprei o material escolar para a filha da nossa nova ajudante", ela leva a menina para comprar mochila, caderno, etc. Os comentários dos fãs falam sobre a "humildade" e a "bondade" de Bruna. Em outro, esse no canal de Lucas, e intitulado, "Demos um dia de princesa para nossa empregada doméstica", eles a mimam. Bruna faz as unhas de Regiane, que também ganha uma progressiva. De novo, os comentários falam sobre as pessoas incríveis que eles são, tão legais, humildes, bondosos etc.

Vamos lá. Pode ter sido boa intenção? Pode, claro. Mas gravar vídeos "sendo bondoso" com a empregada e sua filha gera conteúdo, engajamento e dinheiro. Apesar de "fazer o bem" Bruna usou, sim, as duas no seu canal. E, claro, no maior estilo de "branca salvadora", ainda vendeu essa imagem de "bondosa", "humilde", "incrível".

Mesmo se a intenção for boa, o casal de youtubers lucrava, sim, com isso. 

Muitas máscaras estão caindo nesse período de pandemia. E uma parte do Brasil de herança colonial e escravagista está vindo à tona. Estamos sabendo de coisas que acontecem nas tais casas onde empregadas são "gente da família". Isso acontece todos os dias e fica por isso mesmo.

Agora que está sendo exposto, cabe a todo mundo fazer com que isso mude. 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.