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Caso Miguel: até eu sinto a culpa que Sarí não sente

Nina Lemos

06/07/2020 12h33

Reprodução/ TV Globo

"Você sente algum tipo de culpa?"  "Eu sinto que eu fiz tudo o que eu podia. E se eu pudesse voltar no tempo, se soubesse que ia acontecer o que aconteceu, tentaria fazer mais ainda." O diálogo foi exibido ontem em uma entrevista do Fantástico com Sarí Cortes Real, a patroa envolvida na morte de Miguel, que caiu do nono andar do prédio onde Sarí morava. Sua mãe, Mirtes, empregada da família, tinha ido passear com o cachorro. 

Sem conseguir controlar Miguel, Sarí o deixou sozinho no elevador. Miguel, cinco anos, saiu do elevador no nono andar, subiu em uma mureta para procurar a mãe e caiu.

É muito chocante que Sarí não sinta culpa e que ache que "fez tudo o que podia". Como ela não sente culpa se até eu sinto?

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Não, nunca deixei uma criança sozinha em um elevador e nunca uma delas morreu sob os meus cuidados. Mas, assim como minhas amigas, também brancas e de classe média, sinto uma culpa danada pelo que aconteceu com Miguel.

Sinto culpa por muitas coisas. Além de fazer parte de uma sociedade racista e desigual, me culpo por não fazer o suficiente para mudá-la. Sarí diz que fez tudo o que podia. Já eu sinto que fiz muito pouco e podia fazer mais para mudar as coisas.

Se todas nós (falo de mim e das minhas amigas de classe média brancas que também se culpam) tivéssemos feito mais e deixado privilégios para trás, talvez a mãe de Miguel não precisaria trabalhar quando a creche não funciona, em pleno surto de uma pandemia.

No caso específico de Miguel, lembrei de uma faxineira que trabalhava na minha casa e engravidou. Claro, paguei a licença-maternidade. Mas, quando voltou a trabalhar, não tinha com quem deixar a filha bebê. Ela perguntou se podia levá-la para o trabalho (atenção, todas as outras clientes disseram que não, e ela perdeu os trabalhos). Eu disse que sim, claro que ela podia cuidar da bebê na minha casa.

Obviamente eu dava todo carinho para aquela criança. Mas, dias depois da morte de Miguel, com a história entalada na garganta, me culpei por, na época, não ter dito para a N. que ela não precisava trabalhar e pegar ônibus com uma bebê nos braços. Eu devia ter falado para ela continuar em casa, que eu continuaria pagando e limparia eu mesma minha casa. Sinto culpa ao contar aqui que fiz isso. Culpa e vergonha. 

"Fico pensando o que teria feito naquela situação, será que eu também não teria paciência com o Miguel?", comenta uma amiga, mãe de uma menina de dois anos. Assim como ela, também me imaginei várias vezes na mesma situação. "Como eu teria agido?" "Será que eu seria capaz de deixar uma criança sozinha em um elevador se estivesse muito sem saco?". Reprisamos a cena imaginária várias vezes na cabeça com insônia por causa morte de Miguel. Pelo jeito, Sarí não.

Outra coisa curiosa, Sarí disse que não está com medo de ser presa: "Confio na Justiça".  

A pena por abandono de menor é entre 4 e dez anos. Em seu lugar, eu teria, sim, muito medo de ser presa. "E se fosse ao contrário? Eu não teria nem direito a fiança", disse a mãe do Miguel. Assim como Mirtes, não tenho essa confiança na justiça que Sarí tem. Mas, claro, sou branca, por isso tenho menos chance de ser presa do que Mirtes. E ao pensar nisso me sinto culpada de novo.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.