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Decisão de liberar esposa de Queiroz parece saída de manual dos anos 50

Universa

10/07/2020 18h02

"Um homem precisa da esposa do lado para que ela cuide dele." Esse pensamento parece saído de um manual da boa esposa dos anos 50, mas foi proferido por um juiz em 2020.

Explico. Fabrício Queiroz conseguiu hoje direito a prisão domiciliar. Mas com um detalhe bizarro: sua esposa, Márcia Aguiar, que estava foragida da polícia, ganhou o mesmo benefício. Motivo: segundo o juiz, Queiroz precisava de alguém que cuidasse dele.

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Espera. Como assim? Pois foi isso mesmo. Segundo o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha, a presença da esposa "era recomendável ao lado de Queiroz para lhe prestar atenções necessárias."

Que atenções seriam essas, doutor Juiz?

Cozinhar para ele, lavar sua roupa, fazer seu prato, passar suas camisas? Um homem não é capaz de fazer isso sozinho? E é para isso que serve uma mulher?

Ao mesmo tempo que concede uma regalia a Queiroz e Márcia, o excelentíssimo juiz acabou ofendendo as mulheres, que não são "cuidadoras" de seus maridos, que, por sua vez, não são crianças de dois anos, mas adultos capazes de se cuidar sozinhos e de fazer coisas básicas, como tomar banho, comer e escovar os dentes sem que uma mãe "mande". Ou de tomar seu Nescau sem que uma mulher faça para ele.

Para entender melhor o absurdo basta tentar pensar se algum dia o contrário aconteceria. Vocês conseguem imaginar que um procurado da polícia consiga prisão domiciliar para cuidar da esposa e prover para ela "atenções necessárias?"

Queiroz está tratando um câncer, um dos motivos alegados pelo juiz para que ele tenha direito a prisão domiciliar. Por isso, vai ter direito a receber visitas de médicos e também de seus advogados. Ou seja, sua saúde será cuidada. Em que parte entra a esposa? No caso dos cuidados médicos, se necessário, seus advogados poderiam explicar que ele precisaria também de visitas de profissionais de enfermagem para administrar medicamentos etc. Simples.

Mulheres são, na nossa sociedade machista, as grandes cuidadoras. A maioria dos doentes são cuidados por mulheres da família. O mesmo vale para visita a presos (as filas nos presídios são formadas por mães, esposas, não por pais ou maridos). Isso não acontece porque a gente nasce com esse dom natural, mas porque socialmente somos criadas para isso.

Mesmo assim, a desculpa da doença, no caso do benefício a Márcia é fraca já que, como já disse, para isso existem profissionais de saúde.

Tomara que essa moda não pegue. O que nós, mulheres, queremos, é respeito, não o "benefício" de ter regalias para "cuidar de maridos". Era só o que faltava.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.