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"Você sabe com quem está falando?" Coronavírus reaviva Síndrome de Bozó

Nina Lemos

10/07/2020 04h00

"Meu pai é procurador, tô vendo o seu nome, ele pode fazer você perder o seu empreguinho." A frase foi dita para a  assistente da coordenação da vigilância sanitária Jane Loureiro em um bar da Barra da Tijuca, na zona sul do Rio de Janeiro. Na mesma semana, um vídeo exibido no Fantástico mostra um casal destrata um fiscal  dizendo: "cidadão não, engenheiro civil, melhor do que você", disse uma moça para um fiscal.  

Nos dois casos, eles tentaram dar carteirada irritados com o fato dos bares onde estavam serem fechados por não estarem cumprindo os requerimentos necessários em tempos de Coronavírus.

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"Como pode alguém falar que eu, essa pessoa incrível, esse príncipe, filho do procurador, não posso tomar minha cerveja aglomerado em um bar durante uma pandemia mundial? Como assim? Quem você pensa que é? 

A mania do "você sabe com quem está falando?" não é novidade. Pelo contrário. É tão antiga que parecia fora de uso. Existe até uma expressão antiga para quem usa de tal expediente: Bozó.

Explico. Lá pelos anos 80 (os mais velhos vão lembrar) existia um personagem criado por Chico Anysio chamado Bozó. O personagem, diante de qualquer coisa, ou para conseguir tirar vantagens dizia: "eu trabalho na Globo, tá?" 

Além de mimadas, essas pessoas de fato acreditam que por causa de status, por serem filhos de alguém, por terem feito alguma faculdade, são melhores que o fiscal que faz seu trabalho. "Quem você pensa que é para falar assim comigo, para dizer não? Você não é do meu nível", pensam. Como se existisse coisa mais sem educação do que destratar um profissional, seja o garçom, a faxineira, o médico, a enfermeira, o fiscal enquanto ele trabalha.

"Os estabelecimentos da Zona Sul (área nobre do Rio de Janeiro) sempre foram mais hostis. Quando há hostilidade, sabe? Isso a gente sempre sofreu", disse a fiscalizadora para o jornal "O Globo".

Pois é:  profissão, sobrenome ou dinheiro do papai muitas vezes não só não garante educação, como faz com que as pessoas sejam ainda mais mal educadas. 

Sangue francês

Também essa semana, outro episódio escancarou o classismo e elitismo e a falta de educação das tais classes abastadas. Em um debate transmitido pelo zoom, a produtora de cinema Luciana Tomasi disse a seguinte frase: "Não adianta a gente tentar fazer filme de senzala, entende? Somos Tomasi, Adami, Gerbase (se referindo ao sobrenome de outros participantes do debate).. Eu, inclusive, tenho sangue francês."  Ela foi acusada de racismo. 

Talvez sua intenção não fosse se fazer de "bacana" por causa do sobrenome (oi, não estamos no século XIX e ela não faz parte da monarquia) ou por causa do tal sangue. Em todo caso, se expressou de uma maneira inaceitável em 2020, causou constrangimento e fez com que a única negra presente no debate, a cineasta Mariani Ferreira, respondesse visivelmente magoada.

O episódio pode fazer com que a produtora e seus colegas (eles riram do que ela disse, achando tudo muito divertido) aprendam. Eles, inclusive, pediram desculpas no dia seguinte.

Aproveito e dou um conselho para quem, como eu, é do tempo do Bozó no Chico Anysio: ouçam os mais jovens! No caso de preconceito de classe, racismo, feminismo, eles me ensinam um monte. A gente nunca pode parar de se educar.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.