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Kanye West surta e fãs culpam Kim Kardashian. Ei, mulher não é rehab!

Nina Lemos

24/07/2020 04h00


Getty Images

Recentemente, o rapper Kanye West tem mostrado que não está nada bem. Nos últimos dias, fez um comício se candidatando a presidente dos Estados Unidos, no qual falou coisas desconexas, posta sem parar frases sem sentido e com viés paranoico no Twitter, preocupando seus fãs. Disse, entre outras coisas, que Kim Kardashian, sua esposa, queria interná-lo numa clínica à força e que ele seria o novo Nelson Mandela. 

A preocupação faz sentido. Essa não é a primeira vez que Kanye, muito talentoso, mostra comportamento instável. E a discussão sobre saúde mental sempre é importante. Na quarta-feira, depois do marido publicar (e apagar) vários tuítes falando dela e de sua família, Kim publicou uma nota no Instagram sobre o caso. E disse, entre outras coisas, que ele sofria de transtorno bipolar.

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"Nunca falei publicamente sobre como isso nos afetou em casa, porque sou muito protetora dos nossos filhos e do direito de Kanye à privacidade quanto à sua saúde. Mas hoje sinto que devo comentar por causa do estigma e equívocos sobre saúde mental." Ela ainda disse que ele era um artista genial e pediu compaixão.

A nota é bem respeitosa e todo mundo sabe que conviver com alguém que tem transtorno durante uma crise não é fácil mesmo. 

Mas como os fãs do marido reagiram? Falando que a culpa é dela. Alguns, inclusive, lançaram uma campanha no Twitter, os posts com a hashtag "FreeKanye" falavam que ele devia se separar dela e assim resolver seus problemas.

Kim, a monstra, seria a culpada pelo distúrbio do marido. Outros acharam um absurdo ela falar que ele sofre de transtorno bipolar. Como se ter um transtorno fosse algo errado. Não é. Transtorno bipolar é uma doença, como diabetes, por exemplo – ninguém escolhe ter, vai ter que cuidar para o resto da vida, etc. Atenção, escrevo aqui como uma pessoa diagnosticada com transtorno de ansiedade crônica. Não escolhi ter isso. Fora que ter um transtorno não é errado, certo?

Ninguém tem culpa

Outro detalhe muito importante: esses transtornos não são causados por outras pessoas. Por isso, não, a Kim não "enlouqueceu" o sujeito. Esse mito de que nós, mulheres, temos esse poder de adoecer um cara é falso.

Também não temos o poder (como muito se espera) de "salvar" alguém com problemas. Em outras palavras, nós não somos rehab. 

Bem, admito, muitas vezes nós mesmo achamos que temos esse poder salvador. Em 100% dos casos, damos com os burros n' água. Quem cura o problema da pessoa são médicos, psicanalistas e psicólogos. E, para se tratar, a pessoa tem que querer. 

Claro, como companheiras e companheiros, podemos incentivar, ajudar, assim como devemos fazer com todos os nossos amigos. Em um caso muito grave, a família pode, sim, pedir a internação.

Mas a pessoa só vai se tratar mesmo se quiser. Falo por experiência própria de quem já tentou ser rehab de outros muitas vezes na vida e falhou miseravelmente (claro).

Não sou fã de nenhum dos dois. Mas me cansa ver, de novo, uma mulher ser demonizada por causa do surto do parceiro.

Não é a primeira vez que isso acontece na história do pop. Courtney Love, por exemplo,  já foi culpabilizada pela adicção e suicídio de Kurt Cobain. 

Façam um exercício. Como, no geral, é tratado o parceiro de uma mulher que tem distúrbios psiquiátricos? Ele é culpabilizado? Bem, pelo que sei, os caras que ficam ao lado de parceiras em momentos difíceis são considerados santos, os caras mais legais do mundo. "Nossa, aguentou aquela "louca".

Enquanto isso, mulheres, quando cuidam dos parceiros, ainda correm o risco de tomar a culpa pela doença que nem é delas. 

Fiquem atentas.

Se alguém da sua família precisar de ajuda, incentive a procurar um médico e/ ou um terapeuta. Mas, lembre-se, a culpa não é sua. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.