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Por que propaganda com paternidade de Thammy Miranda incomoda tanto?

Nina Lemos

27/07/2020 14h05

Thammy Miranda parece ser um pai apaixonado e dedicado. Seu filho, Bento, nasceu no ano passado. E Thammy, casado com Andressa, é um daqueles pais que postam sem parar fotos do filho e falam muito sobre ele. Thammy é também um homem trans, talvez o mais famoso hoje no Brasil. 

Por esses motivos, ele foi escolhido para ser um dos protagonistas, junto com influenciadores como Babu Santanna e Rafael Zulu, da campanha de Dia dos Pais da Natura. O tema é: "pais presentes". A escolha é adequada, já que Thammy exibe diariamente sua alegria ao cuidar do bebê e esse será seus primeiro Dia dos Pais.

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Mas, mesmo assim (ou por causa disso) ele e a marca estão sendo alvo de ódio. Hoje, enquanto famosos como Felipe Neto elogiavam a Natura por terem escolhido Thammy, muitos  planejavam boicotar a marca e se diziam ofendidos pela escolha de "um cara que não era pai", um cara que não é "homem" e por aí vai. O influencer e a marca ficaram parte do dia como assuntos mais comentados do Twitter. Alguns consumidores se sentiam traídos pela marca, que "teria se corrompido"!.

Quanto ao fato de ele não ser pai ou homem, bem, isso não é decidido na internet. Ele é, sim. Está na certidão, na vida do filho e isso não é um fato que os outros "decidem". Conforme-se.

Thammy parece causar um nó na cabeça de muita gente. Afinal, ele é um cara "super família", conservador, "bom cidadão" e… trans. Com perfil popular, ele frequenta programas de auditório e parecer ser aquele cara de que as avós gostam. Deve ser por isso que ele incomoda tanto.  

"A mãe assume, o pai some"

Ao que tudo indica, ele é também um "pai presente", coisa que não é tão comum no Brasil, infelizmente.

Segundo dados do IBGE, cerca de 5, 5 milhões de brasileiros não possuem registro do pai na certidão de nascimento. E, mais que isso, quase 12 milhões de famílias são formadas por mães solo.

Claro, nome na certidão pode dizer muito pouco. Quantas amigas vocês têm que foram abandonadas pelo pai? E quantas amigas foram abandonadas pelo pai de seus filhos e criam os filhos sozinhas? 

Outro modelo de pai muito comum é aquele que dá ordens, mas que não participa das tarefas da casa e da criação do filho.

A realidade está mudando e muitos pais da nova geração são prova disso.  Mas abandono paterno ainda é um assunto muito sério. 

Pais como Thammy, sejam trans, héteros, gays (que diferença faz?)  estão aí para mudar as estatísticas e mostrar que pais podem ser presentes, sim. 

São eles que vão criar, junto com mães, amigos e resto da família, pessoas menos caretas e conservadoras do que as que julgam o direito de alguém ser pai. Quanto aos outros, como diria Cazuza, vamos pedir piedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.