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Em Berlim, 20 mil protestam contra isolamento e uso de máscaras. É sério?

Nina Lemos

03/08/2020 14h21

Crédito: John Macdougall/AFP

"Máscara? Não, obrigado!`. "Queremos nossa vida de volta". "Abaixo a ditadura do Corona!". Esses foram alguns dos slogans cantados e exibidos em cartazes em Berlim no sábado, quando a capital da Alemanha sediou uma das maiores passeatas contra as regras para combater o Coronavírus já realizada no mundo.

Cerca de 20 mil pessoas de toda a Alemanha vieram para a cidade protestar contra…o vírus? As regras? Uma conspiração internacional que inventou um vírus? Difícil entender a causa…

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A manifestação reuniu pessoas (sem máscara, o que é proibido em aglomerações) que acham que o vírus foi inventado em uma conspiração política mundial para vigiar as pessoas. Ao mesmo tempo, alguns acham que a pandemia nem sequer existe. E, para ficar ainda mais surreal, eles comemoraram o que chamaram de "Tag Der Freiheit (dia da liberdade) "o fim da epidemia". Sim, eles comemoraram o fim de uma coisa que:

  1. Ainda não acabou.
  2. Eles acham que não existe.

As tais regras contra as quais eles reclamavam também praticamente não existem mais. Na Alemanha, país onde moro há cinco anos, a vida está praticamente normal. Depois de um mês de lockdown (entre março e abril), a curva das infecções foi achatada. Aos poucos, o comércio reabriu. Hoje, só precisamos usar máscara (e mesmo assim só em lojas, supermercado e no transporte público). Quase tudo já abriu, menos clubes noturnos. 

No momento, existe uma alta de casos no país e uma preocupação com uma segunda onda. Outra razão para que a passeata seja um escândalo. Sim, 20 mil pessoas aglomeradas sem máscara podem fazer os casos crescerem ainda mais. Alguns dos manifestantes (não é piada) carregavam cartazes onde estava escrito: "nós somos a segunda onda" (!).

Mas quem são essas pessoas? Bem, um mix que reúne esotéricos contra vacina, cidadãos normais que acham que estão sendo vigiados, extremistas de direita e neonazistas. Sim, para piorar ainda mais as coisas, bandeiras com símbolos nazistas foram vistas na manifestação. 

Esses símbolos são estritamente proibidos na Alemanha, país onde turistas já foram presos por fazer saudação nazista de "brincadeira". 

Mas como isso pode acontecer? Essa é uma das perguntas que membros do governo, toda a mídia e  importantes políticos do país se fazem hoje. Basicamente, a polícia de Berlim só interrompeu a manifestação depois de umas 4 horas. E as pessoas com os símbolos nazistas não foram presas…

A manifestação tem muito em comum com algumas que acontecem no Brasil no momento (aquelas do pessoal de verde e amarelo que buzina na frente de hospitais). Além dos cartazes absurdos, alguns manifestantes estavam vestidos de super heróis da Marvel (!). Alguns jornalistas foram até agredidos.

Essa não é a primeira vez que isso acontece: jornalistas foram agredidos também nas outras manifestações contra as medidas que aconteceram na Alemanha. Aos gritos de "lugen press" (imprensa mentirosa), frase famosa por ser usada por nazistas, algumas pessoas cuspiram em jornalistas e gritaram para eles: "mostrem a cara! Tirem a máscara!". 

Hoje, um país escandalizado chama o "evento" de vergonha, falta de respeito, inconsequência e o governo pensa em como fazer para evitar que isso aconteça de novo. 

Evitar que esses eventos ocorram, proibindo, é possível, mas complicado, já que a constituição garante o direito à manifestação. Mas mais difícil, quase impossível mesmo, é conter a "onda" de loucura que veio junto com a pandemia no mundo todo.  Sim, o Coronavírus despertou demônios nas pessoas… 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.