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Com malária, Camila Pitanga defende o SUS. E isso nunca foi tão necessário

Nina Lemos

12/08/2020 04h00

Imagem: Reprodução/Instagram

No começo da pandemia do Coronavírus, foi noticiado que alguns dos ricos de Belém e Manaus criaram uma maneira de buscar tratamento. Eles alugavam jatinhos e se internavam em hospitais particulares de ponta de São Paulo. Esses hospitais são quase como grifes. Ricos e famosos, em geral, se internam no Albert Einstein ou no Sírio-Libanês (hospitais de referência, mas que nós, reles mortais, não pensamos na possibilidade de poder pagar).

Pois Camila Pitanga, uma das atrizes mais respeitadas e conhecidas do Brasil, quebrou esse ciclo. Contaminada com malária, Camila contou ontem no Instagram que está se tratando com a filha no Hospital das Clínicas, em São Paulo, ligado ao SUS, e postou uma homenagem aos profissionais de saúde que cuidam dela. No fim do post, ela defendeu o Sistema Único de Saúde.

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Foram 10 dias de muito sufoco. Entre picos de febre alta, calafrios e total incerteza. Havia a sombra da possibilidade de estar com covid-19. Somente no domingo recebi o resultado negativo do meu PCR. Mas no lugar de me aliviar, permanecia a agonia pois eu não fazia ideia do que eu poderia ter. Estava à deriva. Pois bem, uma amiga minha suspeitou que esses picos de febre associados ao fato de estar em isolamento social numa zona de Mata Atlântica no litoral de SP, podia ser malária. Fui indicada a conversar com dois infectologistas. Os dois extremamente generosos em falar comigo num domingo já de noite. Dr Luiz Fernando Aranha e o Dr André Machado. Agradeço ao último pelas orientações que me levaram ao Hospital das Clínicas da USP. Uma vez que a supeita era malária, doença muito rara, não há melhor lugar para você ser tratado do que a rede SUS, local de referência e excelência para doenças endêmicas. No HC, fui prontamente atendida por uma mulherada. Sim, uma equipe 100% de mulheres fantásticas do laboratório da Sucen. Faço questão de dar seus nomes: Drª Ana Marli Sartori, Drª Silvia Maria di Santi, Drª Dida costa, Drª Simone Gregorio, Drª Renata oliveira e tão importantes quanto, as agentes de saúde Cida Kikuchi e Gildete Santos. Todas foram extremamente profissionais, eficientes e gentis. Bom, os resultados dos exames sairam dando positivo para malária. Eu e minha filha. Uma doença que ainda existe, é curável, mas precisa de cuidados. O tratamento é gratuito. Faço cá meus votos de gratidão a todas e todos agentes de saúde, que além de estarem na trincheira nessa luta contra a covid-19, estão aí atendendo inúmeras outras demandas com seu profissionalismo em meio a condições e incertezas muito grandes. É de suma importância valorizar a existência desse sistema de saúde que cuida de tanta gente, principalmente dos que não tem condições de pagar um plano de saúde. Estamos num país onde uma doença matou mais de 100 mil pessoas em poucos meses. Esse número poderia ser o triplo ou mais se não fosse o SUS. A catástrofe seria ainda maior. Muito obrigada e parabéns a todas e todos os profissionais de saúde desse país!!!

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"É de suma importância valorizar a existência desse sistema de saúde que cuida de tanta gente, principalmente dos que não tem condições de pagar um plano de saúde. Estamos num país onde uma doença matou mais de 100 mil pessoas em poucos meses. Esse número poderia ser o triplo ou mais se não fosse o SUS. A catástrofe seria ainda maior. Muito obrigada e parabéns a todas e todos os profissionais de saúde desse país!!!" A conclusão de Camila, de que mais pessoas morreriam em decorrência do Coronavírus se não fosse a existência do SUS,  é endossada por médicos.

"O SUS está sendo fundamental durante a pandemia. Em São Paulo, por exemplo, os melhores hospitais, os que mais atenderam casos de Coronavírus e com excelência são o Hospital das Clínicas e o Emílio Ribas. Os dois pertencem ao SUS", diz o infectologista José Valdez, membro da sociedade brasileira de Infectologista. 

Ele lamenta, no entanto, que o SUS esteja há mais de uma década sem receber os recursos necessários. Se mais equipado, segundo ele, mais casos poderiam ser atendidos e mais vidas seriam salvas. "O projeto do SUS é maravilhoso, pena que ele vem sendo sucateado há uns 15 anos", diz o infectologista, que trabalha no Centro de Referência e Treinamento para HIV e Aids, ligado ao SUS. 

Mesmo com sua excelência comprovada por especialistas, até hoje muitas pessoas viram o rosto para o SUS. Segundo Valdez, apesar da falta de recursos, hospitais do sistema são referência em muitas doenças, entre elas a malária que acomete Camila Pitanga e sua filha.

"Os maiores centros para esses tipos de doenças, que são "chamadas doenças da pobreza", causadas, entre outras coisas por falta de saneamento básico, são os hospitais da rede pública. Muitos hospitais particulares nem estão preparados para isso. Os maiores centros de referência  no sudeste para tratar malária e leptospirose, por exemplo, no sudeste, são o Emílio Ribas e Hospital das Clínicas", diz.

O SUS, que já foi muito mal visto pela população, tem sido mais valorizado durante a pandemia.  Levantamento da Rede Nossa São Paulo, elaborado em parceria com o Ibope Inteligência, mostrou que seis em cada dez pessoas pertencentes às classes média e alta da capital paulista passaram a valorizar mais o SUS com a pandemia de covid-19. Detalhe: entre os entrevistados, pertencentes a classes A, B e C, 62% disseram estar sem plano de saúde. Com a crise econômica, o número deve aumentar. Ou seja, o SUS nunca foi tão fundamental. 

O testemunho de Camila levou outros famosos a se manifestarem a favor do SUS em mensagens de apoio à atriz.  

"Camila, espero que vocês duas se recuperem prontamente. E, mesmo no sufoco, você foi gigante enaltecendo nossas mulheres do SUS", disse a apresentadora Astrid Fontenelle. "Boa recuperação, lindezas. Viva o SUS", escreveu a atriz Nanda Costa. "Fiquem bem, amadas, você e sua filha! Orgulho do SUS, orgulho dos nossos profissionais de saúde, que para mim são os melhores do mundo", comentou Maria Fernanda Cândido.

Esse movimento, vindo de pessoas influentes, pode, sim, fazer com que mais pessoas valorizem e tentem melhorar o sistema. A saúde agradece. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.