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Nina Lemos

5 lições de "O Dilema das Redes", doc que mostra o vício nas redes sociais

Universa

14/09/2020 14h15

Reprodução

Você tenta largar o vício, mas não consegue. Quanto mais você usa a droga, mais seu "traficante" fica feliz. Quando tenta parar, ele te seduz com outro produto mais forte. E quais são os efeitos adversos dessa droga? Depressão, suicídio, baixa autoestima e por aí vai. 

Não estou falando de heroína ou cocaína, mas do Facebook, Instagram, Google e Twitter. Todas aquelas redes em que passamos horas por dia. Estamos todos viciados e sendo manipulados. E, o pior, esse deve ser um caso raro de vício que engloba toda família, já que nossos pais também estão viciados, assim como nossos avós e nossos filhos pequenos.

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Eu não estou exagerando. E por isso você tem que ver o documentário "O Dilema das Redes", que está disponível na Netflix. No filme, ex-chefes e criadores das redes sociais mais poderosas do mundo explicam como nos viciamos, como somos manipulados por sistemas que eles mesmos criaram e nos alertam, praticamente imploram, para que a gente aja e faça algo. Se você não viu, destaco alguns pontos para que você fique esperto. Se somos todos viciados, pelo menos vamos ser viciados com consciência…

1. Admita o vício: Uma das coisas que fazem a gente levar a sério o que vemos no filme, é que elas não são ditas por teóricos ou palpiteiros, mas por executivos das redes sociais. Tim Kendall, ex-executivo do Facebook e ex-presidente do Pinterest conta que, uma época, chegava em casa do trabalho e não conseguia largar o celular. "Eu tentei me reeducar. Como não funcionou, tive que partir para a força bruta." Outro executivo teve que criar um software para largar o vício.  Uma frase do filme diz tudo: "as redes sociais e os traficantes de drogas são os únicos negócios que não chamam os consumidores de clientes, mas de usuários."

2.Entenda como a droga funciona: "As redes sociais funcionam como caça-níqueis de cassino. Todo o design é feito para te viciar, " diz Tristan Harris, ex designer e executivo do Google. Então, nada ali é por acaso. As redes possuem todos os seus dados e fazem o máximo para te prender. O objetivo é te deixar o maior tempo possível online. O que conta para eles é isso, o chamado engajamento. Se você passar mais tempo, vai ver mais anúncios e é isso que os fazem lucrar. Assim, eles vão te sugerir vídeos, por exemplo, que sabem que são do tipo que você vai passar horas vendo. 

Isso significa que você vai ser exposto também para coisas que te fazem mal. Eu, por exemplo, gosto de ouvir músicas tristes dos anos 80 durante a TPM. Depois que ouço uma do  "The Cure", outras músicas tristes vão aparecer como sugestão (testei, é isso mesmo). Assim, talvez eu não melhore e passe o dia todo dentro de casa chorando. Ruim para mim, mas bom para o Youtube, já que vou passar o dia todo conectada e consumindo anúncios entre as músicas.

3. Proteja suas crianças No filme, o executivo Tristan Harris lembra que, quando o assunto é televisão, por exemplo, tudo é regulamentado, a população pode pressionar os governos para que publicidades não sejam exibidas etc. E aí, seu filho está vendo propaganda enquanto assiste a vídeos no TikTok  ou no Youtube. Será que isso vai fazer bem para eles? O pesquisador Jonathan Haidt, PHD em psicologia social,  chega a relacionar o aumento de número de suicídio entre adolescentes com a popularização das redes sociais. Apavorante. Todos os pesquisadores e ex executivos regulam o tempo usado pelos seus filhos em redes sociais e recomendam que você faça o mesmo. Também recomendam que um jovem não use redes sociais antes dos 16 anos.

4.Esteja atento aos efeitos colaterais Segundo os executivos e entrevistados do filme, um dos efeitos colaterais mais sérios das redes é a popularização das fake news. Em um momento como o de agora, por exemplo, em que vivemos uma pandemia mundial, as notícias falsas podem matar, quando, por exemplo, alguém compartilha vídeos falando que máscaras não funcionam. Segundo eles, os donos das redes não estão nem aí, só querem lucrar com nosso tempo conectado. Eles também acreditam que a proliferação de fake news e a polarização política criada pelas redes ajudou a eleger líderes populistas, como Jair Bolsonaro.

5-Largue o vício? E agora? Bem, eles não têm exatamente a resposta, mas não são nada otimistas. Há quem fale que devemos largar imediatamente todas as redes sociais. Como sei que não vamos fazer isso… bem… Uma dica que eles dão é tirar todas as notificações do celular (porque não tem como ver uma notificação de que, por exemplo, alguém curtiu uma foto sua) e não correr para ver. Outra é não assistir vídeos sugeridos, não abrir anúncios. Vai adiantar? Vamos conseguir? Não sei. Mas a gente tem mesmo que saber que estamos viciados e ferrados. Dizem que admitir o vício é a primeira parte. Pois é, estamos todos viciados. E ferrados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.