Topo

Mansplaining: ex-comentarista da CNN explica para gays o que é ser gay

Nina Lemos

14/07/2020 04h00

 

Leandro Narloch foi demitido da CNN após comentário julgado homofófico (foto: Reprodução)

Semana passada, o jornalista e escritor Leandro Narloch fez um comentário "polêmico" na CNN e acabou perdendo o emprego. Motivo, ao comentar decisão do STF que, finalmente, permite que homossexuais possam doar sangue (sim, eles eram proibidos!), Leandro comentou que "a mudança seria na restrição da 'opção sexual' e disse que não havia dúvidas de que os homens gays teriam uma chance maior de ter AIDS."

Chamar orientação sexual de opção sexual é um erro comum que, inclusive, eu já cometi (quem nunca?). Nesses casos, a gente é corrigido por um amigo gay e nunca mais erra. Quanto a fala sobre gays terem mais chances de se contaminar, achei preconceituosa mesmo.  Se ele devia ou não ser demitido, eu não sei.

Veja também

Mas a coisa que mais me chamou atenção nessa história foi: depois de perder o emprego por essa declaração, ele se defendeu insistindo no erro. Depois de ter sido repreendido por vários homossexuais sobre a questão de homossexualidade ser uma "opção", ele respondeu: 

Alguns reclamaram do termo 'opção' e não orientação sexual. Aí discordo. Acho que existem as duas coisas: gays e lésbicas que o são por orientação sexual e outros que optaram. Mas não tenho certeza sobre isso. É uma boa discussão para o futuro.

Ah, a autoestima do homem hétero…

Lendo esse tipo de coisa, a gente pensa: mas, meu Deus, o que é a autoestima do homem hétero? A que ponto chega o "homem explicação"? Como um heterosexual saberia que um gay um dia decidiu que seria gay, apesar de todos eles dizerem que isso é uma coisa que não se escolhe? 

Pois o cara "lê" as críticas e continua pensando: "não, eles estão errados. Eles não sentem isso desde sempre, alguns escolheram que eu sei!"?  Discordar de um gay em um caso desses é como falar para um astronauta que a terra não é redonda.

Para quem ainda está confuso, um exemplo: como todos temos uma orientação sexual, a gente também não pode escolher deixar de ser hetero. Não rola. Uma pena, pois quando vemos homens como Leandro cometendo esse tipo de comportamento "hetero-sabichão-sem noção", muitas de nós pensam: "Preferia ser lésbica e namorar mulher."

Mas nós, mulheres hétero, estamos fadadas a continuar gostando de nos relacionar com homens. E por isso mesmo escrevo esse texto, como um apelo para todos os "heteros": aprendam a ouvir. Não é possível que vocês não consigam. E não escutem só seus parças, não. Escutem também as mulheres, os gays e trans. 

Não duvidem do que a gente fala quando é óbvio que você não tem noção do que está falando. 

Sabe o que é mansplaining? Eu desenho

Aconteceu recentemente comigo. Durante a quarentena, contei em um grupo de WhatsApp como estava a situação pós-lockdown em Berlim, onde moro. Disse que a situação estava sob controle e que o comércio tinha aberto. O que um homem presente no grupo fez? Me explicou que eu estava errada. 

Segundo ele, que mora no Brasil, a situação na Alemanha era dramática e as lojas levariam mais uns dois meses para serem abertas. Ou seja, ele ignorou o fato de que eu vejo as lojas abertas na minha rua. O fato de eu ter entrado em uma delas seria, provavelmente, uma alucinação.

Pois esse exemplo de "mansplaining" é bem parecido com o do Leandro tentando explicar para gays o que eles sentem. 

É ruim para os homens agirem dessa forma, pois eles deixam de aprender um monte de coisas. E é muito, muito cansativo para todas nós que gostamos de nos relacionar com homens (e isso não é uma opção). 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Mansplaining: ex-comentarista da CNN explica para gays o que é ser gay - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL

Newsletters

A newsletter para mulheres que vivem em um mundo em evolução. Os debates mais importantes da semana, os memes que vão fazer você rir, as mulheres que foram destaque. Receba toda sexta.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.