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Nina Lemos

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Dominação financeira: fetichistas sentem prazer em pagar contas de mulheres

Nina Lemos

16/05/2019 04h00

A estudante de veterinária Mariana (nome fictício), de 24 anos, é uma curiosa por fetiches. Frequenta comunidades, lê sobre o tema. Além disso, ela diz que, por conta de seu visual e suas tatuagens, costuma "atrair fetichistas". Pois foi assim que ela entrou em contato com o mundo do "findom" (financial domination ou dominação financeira, em português).

Trata-se de uma variante da prática sadomasoquista em que o prazer do dominado é pagar contas e dar presentes para suas "dominadoras". Não há relação sexual. O prazer está em pagar, dar presentes, e ser humilhado.

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Por cinco meses, Mariana foi dominadora de Fernando (nome fictício), que entrou em contato com ela pelo Instagram. Os dois nunca se encontraram pessoalmente mas, em uma conversa online, ele se ofereceu várias vezes para pagar contas e comprar presentes para ela. "Achei que era zoeira. Aí, meio para testar, falei para ele: Está bom. Então manda R$ 200 para a minha conta. Ele mandou na hora. Fiquei pasma."

Nos cinco meses em que se relacionou com Fernando, ganhou presentes, teve boletos pagos, recebeu dinheiro. "Ele tinha prazer em pagar coisas para mim e ser mal tratado. Gostava de ser ignorado, de se sentir otário", conta.

A estudante conta que foi na onda por curiosidade, mas que não repetiria esse tipo de "relação". "Chega uma hora que cansa. E é uma coisa que te consome, você tem que fazer o jogo, mesmo ignorar significa saber a hora certa de desaparecer, voltar etc". Seu ex escravo (as expressões usadas são as mesmas do sadomasoquismo, como escravo, rainha, dominadora), segundo ela conta, está "desmamando" (largando o vício) nesse fetiche. Coisa que Mariana entende e incentiva.

"O mundo dos fetiches é gigantesco, você não imagina o que existe. Mas todo mundo envolvido tem que ter muito respeito, tem que confiar na palavra do outro, respeitar os contratos, tem que ter total confiança e saber quando começa a te fazer mal", explica. No seu caso, ela não pensa em repetir a dose e ter outro "escravo financeiro" porque, psicologicamente, sentia que aquilo começou a fazer mal para ela.

Fernando era o que se chama na cena fetichista (e o tema cada mais se populariza e vira uma espécie de "modinha" na internet) um "pay pig" de Mariana. O termo, cuja tradução literal é porco que paga, é facilmente encontrado na rede. Existem comunidades no Facebook, vídeos no Youtube ensinando a ter "um pay pig" e muitas meninas (inclusive brasileiras) procurando por um. As rainhas mais populares exibem fotos com dinheiro, tomando champanhe, portando sacolas de grife e escrevem coisas como "gosto de ser mimada."

"Como o termo está ficando popular, tem muita menina que entra nas comunidades procurando um pay pig só para que ele pague suas contas, seus boletos. Elas não entendem que não é bem assim. Mas muitos dos praticantes percebem que elas não levam a sério e as tiram das comunidades", conta Mariana. Ela dá o exemplo de várias meninas que entravam nas comunidades pedindo recarga de celular. "Aquilo virou até uma piada interna de quem levava o fetiche a sério", conta.

Todo cuidado é pouco

Segundo o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospitais das Clínicas, essa não deixa de ser uma variante clássica do sadomasoquismo. "O sujeito que paga sente prazer em ser humilhado, em servir. E quem aceita sente prazer com a dominação." A coisa se complica, segundo ele, com a "banalização." Hoje em dia as coisas se espalham muito fácil na internet, as pessoas substituem contatos humanos por online, o que pode levar para uma banalização das práticas", pontua.

"Quando uma pessoa entra em uma dessas, não pode deixar de saber que está em uma relação com uma pessoa, mesmo que virtual, que aquilo é um contrato estabelecido", o profissional explica. Em outras palavras, é preciso tomar cuidado para não se machucar. Como diz a própria Mariana, "não é apenas você achar que um cara vai pagar os seus boletos, que alguém vai te dar dinheiro e pronto. Se você fizer isso, pode machucar alguém e sair machucado".

Sim, existe seriedade até no mundo dos fetiches que podem parecer mais esquisitos para nós, não praticantes. "É uma relação de prazer, mesmo que não exista relação sexual", diz Saadeh.

Mariana, inclusive, faz questão de deixar claro de que tem consciência de que, por cinco meses, exerceu um trabalho sexual. "Eu não me coloco acima das prostitutas. Não foi porque não transei com o cara que não fiz um trabalho sexual. Fiz, sim. Tenho plena consciência disso."

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.