Topo

Michelle Bolsonaro e foto de lingerie no Instagram. Ela pode ser blogueira?

Nina Lemos

07/08/2019 15h16

(Reprodução/ Instagram)

 

Ontem, os seguidores da primeira-dama Michelle Bolsonaro levaram um susto ao dar de cara com um post incomum em seu stories. Michelle, tal qual uma blogueira de moda, postou fotos de conjuntos de lingerie de renda e cintas, que recebeu de uma marca. A primeira- dama fez o que é conhecido no mundo dos influencers como "recebidos", um vídeo, ou fotos que pessoas do "meio" postam agradecendo um presente.

Na linguagem comercial, ela fez um publieditorial, ou seja propaganda para uma marca. E usou, para isso, um perfil oficial. Publieditoriais já causaram polêmica. Explico: muitos dos influencers ganham dinheiro de marcas para exibirem roupas ou presentes. Segundo a lei, tem que ficar claro que é propaganda, o que nem sempre é feito. No caso do post de Michelle, não era algo pago: ela provavelmente postou porque quis e não ganhou nada para fazer isso além da lingerie supracitada.

Veja também

Atenção. Não estou falando que Michelle descumpriu a lei nem que ela recebeu dinheiro para divulgar as fotos. Não, ela deixou claro que as peças eram presentes,  tudo dentro da lei.  Ela apenas fez o que nós,  jornalistas, chamamos de jabá (receber presentes de marcas, viagens etc). Nós, jornalistas, evitamos a prática. Exemplo: se eu falo bem de uma loja e eles me dão um presente, pode ficar parecendo que falei bem só por causa do "mimo", certo?

Michelle não é jornalista. Mas tem um perfil na rede social oficial de primeira-dama de um país. Usar o espaço para "postar" mimo, ou seja, fazer jabá, desculpem, é no mínimo sem noção. Seus assessores deveriam ter alertado para ela que não pega bem. Ela não é uma blogueira de moda. E, sim, em uma república existem (ou deveriam existir) regras do decoro.

E se fosse a Manuela?

Agora, a parte mais estranha de toda. Michelle postou fotos justamente de lingeries. Aqui do meu lado, me perguntei. Gente, imagina se a Manuela D'Ávilla postasse uma foto de uma calcinha sexy no Instagram? O que aconteceria com ela? Manuela é atacada, entre outras coisas, por ter uma tatuagem (!). Se postasse uma calcinha, estaria incentivando a pedofilia, fazendo apologia da falta de vergonha, orgias.

Não, eu não acho que postar uma calcinha incentiva a pedofilia, seja falta de vergonha ou prova de que alguém faz orgia (nada contra elas, inclusive). Mas o que teria acontecido? E se fosse a Maria do Rosário, alvo de constantes fake news que atingem, inclusive, sua filha adolescente? Elas seriam chamadas de putas (e não, elas nem precisam fazer isso para serem xingadas, pois já são todos os dias. E, de novo, nada contra as prostitutas).

O tipo de calcinha que a primeira dama usa não é problema nosso. Ela pode gostar do que quiser. Como a gente sempre diz, "meus corpo, minhas regras". Isso vale, claro, para Michelle Bolsonaro também. Se alguns moralistas usam de dois pesos e duas medidas na hora de atacar pessoas, não somos nós que vamos usar. Não temos nada, nada a ver com suas roupas íntimas. O que não quer dizer também que a gente precise vê-las, certo? Isso porque, vou repetir: a senhora não é influencer. Um dia, quando deixar de ser primeira-dama, aí sim, ela pode ser o que bem quiser. Seu Instagram, suas regras.

Mas, enquanto a senhora é esposa do Presidente da República vai ter, sim, a sociedade de olho, por mais que seu marido grite para jornalistas que é o Johnny Bravo e faz o que bem entender porque "ganhou, porra!", as coisas não são assim

Essa não é a primeira vez que o Instagram da primeira-dama vira assunto.

No fim de julho, em uma das lives que faz semanalmente para falar com a população, Bolsonaro fez propaganda do Instagram da esposa, exibindo um cartaz com seu nome na rede. "Quem puder se inscrever, logicamente, se esse número crescer, eu vou ter um reconhecimento hoje em casa, quem sabe, um jantar", ele disse, entre risos. Para depois falar que "estava na ativa", gargalhando. 

Além da propaganda, bem, o presidente fez piadinha sobre conseguir sexo depois de fazer o que a mulher quer. Lamentável.

Os dois, e o resto da família, com lives, Instagram, Twitter, parecem não ter entendido ainda que, repito, não são influencers, blogueiros ou youtubers. Fica a dica, Michelle. E boa sorte no blog (depois que você deixar de ser primeira-dama)!

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos