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Nina Lemos

Nina Lemos

Teve show cancelado: por que bullying de MC Gui é perigoso para crianças

Nina Lemos

22/10/2019 14h48

Raphael Castello/AG News

O vídeo é chocante. Em um passeio na Disney, o MC Gui mostra turistas em um bonde. Até que ele diz: "nossa, até parece um pesadelo". E foca em uma garotinha de uns 8 anos.  Ele se refere à aparência de uma menina. E ri. Ri na cara dela enquanto seu rosto é exibido. Seus amigos riem junto enquanto a menina faz cara de triste. A cena é de partir o coração. Inclusive porque fica claro que a menina entendeu que estava sendo ridicularizada, criticada, julgada foi exibida no Instagram do cantor de 21 anos. Depois, ele pediu desculpas

MC Gui é aquele mesmo que já fez piadas racistas, homofóbicas e machistas no Twitter. Na época, quando antigos tuítes seus com frases de ódio do tipo "Qual a maior tristeza de um caçador? Ter um filho viado e não poder matar" foram desenterrados, ele se desculpou. Disse que quando escreveu era muito novo e que tinha mudado. Às vezes acontece, mas não parece ser o caso de Gui. 

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"Nossa, mas eu nem sei quem é esse MC Gui, por que você está falando dele?". Bem, também não conheço nenhuma música dele. Inclusive porque ele é um ídolo teen. Ele não produz nada para pessoas da minha idade. E é por isso mesmo que MC Gui é perigoso. Ele é um ídolo adolescente, com mais de sete milhões de seguidores no Instagram e músicas com mais de um milhão de visualizações no Youtube. Que exemplos são esses que ele dá? 

O vídeo foi publicado por ele na noite de segunda-feira. Na sequência, ao receber as primeiras críticas, ele apagou o vídeo criminoso e postou outro onde falava, entre outras coisas, que "a internet estava muito chata e que não fez bullying com a menina."  

Opa. Não fez? Pelo que sabemos, rir da aparência de alguém é bullying sim.

Agora, justificar atitudes inaceitáveis com esse papinho de "ai, a Internet está chata", "ai, a gente não pode mais rir dos outros em paz", "ai, o politicamente correto" só piora as coisas. Não é o mundo que está chato, Gui. O mundo não aceitar mais esse tipo de comportamento só mostra que, em alguns casos, o mundo melhorou!

Segundo especulações, a menina teria câncer, o que pode tornar a crueldade pior. Mas, em todo caso, bullying (que foi, sim, o que ele fez) não pode ser aceito. Muito menos por parte de um adulto que tem como público… crianças e adolescentes!

Nunca conheci quem não tivesse sofrido bullying

Boa parte de nós já sofreu alguma forma de bullying na infância.  Ver a cena (que não será reproduzida aqui para não expor ainda mais a menina) faz com que a gente reviva o horror. Todos nos vemos naquela garotinha. E dói. Claro, o bullying não acontece só na infância (eu sofro bullying na internet até hoje). Mas, quando a gente cresce, tira isso de letra. Quando a gente é criança, isso dói de verdade. E pode deixar marcas para sempre.

Claro, o bullying em geral vai para cima de quem ousa ser fora do "padrão". As vítimas costumam ser meninas "feias" (como se isso não dependesse do ponto de vista), ou magras demais (eu, Olivia Palito, sei o que é isso), gordas, negras e, claro, meninos afeminados. Não tenho nenhum amigo gay que não tenha sofrido bullying na escola. 

Mas, quando eu era criança, não se falava sobre os perigos do bullying. Enfrentávamos o sofrimento como parte da vida. Hoje, sabemos que não é assim. As escolas fazem trabalhos para que isso não aconteça, pais discutem o assunto, livros sobre o tema são escritos. Aí.. bem, chega o MC Gui e joga todo o trabalho de prevenção fora dando esse exemplo. Lamentável.

Eu não tenho filhos e não conheço nenhuma criança fã do MC Gui. Mas, se tivesse, tentaria convencê-los a gostar (e gastar dinheiro) de outra pessoa. Ok, vou ser sincera. Se eu tivesse filhos, eu os proibiria de ir a shows desse sujeito. Muitos pensam como eu. Ou seja, fazer "bullying" pode não ser bom para os negócios.

A prova disso é que na manhã de hoje, depois de perder shows, MC Gui tentou se explicar de novo. Disse que jamais riria de uma criança se achasse que a própria não estava achando graça e se divertindo. Mas riu, Gui. E não, não é o mundo que está chato. É a crueldade que não pode ser tolerada. Muito menos contra criança e vindo de… um ídolo de crianças.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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