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Nina Lemos

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De Manuela a Joice: é possível discordar de mulher sem atacar com machismo

Nina Lemos

08/11/2019 04h00

Pedro Ladeira/Folhapress, PODER

"Gorda, porca, Peppa pig!" A deputada do PSL Joice Hasselman passou a semana sendo alvo de ataques desse tipo na internet.

Logo ela. Sim, é importante lembrar que a própria Joice (e quem acompanha os barracos em redes sociais sabe disso)  já usou (e muito) do mesmo machismo para atacar mulheres. Em suas redes sociais, já chamou a ex-presidente Dilma Rousself, por exemplo, de "vaca" e de "anta". Com isso, alimentou redes de ódio que fazem com que mulheres sejam atacadas e até ameaçadas de morte.

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O que eu acho, sinceramente: nenhuma mulher pode ser alvo de ataque machista. Quem chama Joice de porca está errado. E Joice, quando chamou adversárias políticas de vaca, estava errada também.

É inaceitável que qualquer mulher, seja do campo ideológico que for, seja tratada dessa maneira misógina, cheia de ódio e calúnia. 

Ah, mas mulheres não podem ser criticadas? Podem, claro. Mas porque mulheres não são chamadas simplesmente de incompetentes, de sem caráter e por aí vai? Por que somos comparadas a bichos? Por que magoam nossos filhos? 

Lembra daquela frase básica: "não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você? Pois é.  Se não queremos ser xingadas de vacas, vadias, feias e por aí vai, não podemos chamar nenhuma mulher das mesmas palavras. É possível. Eu juro. Apesar de não ser tão fácil. Nós, mulheres, também fomos criadas em uma cultura machista. Eu mesma tenho que me segurar para não soltar um "mas que vaca!" quando vejo alguma mulher ter uma atitude horrível. Mas é possível.

Manuela D' Ávila, adversária política de Joice e vítimas de centenas de fake news alimentadas, inclusive, pelo partido de Joice, provou isso.

Ao ver a deputada do PSL ser atacada (e chorar no congresso lembrando que seu filho a perguntou porque ela está sendo chamada de porca) Manuela teve uma reação inusitada e escreveu uma carta aberta de solidariedade para a deputada.

Confesso que até eu fiquei surpresa e minha primeira reação foi pensar: "Mas como assim, Manuela? Essa mulher já teve atitudes péssimas com outras mulheres! Já  xingou tantas!"

Até que minha amiga e parceira Jô Hallack me disse: "É possível, sim, achar que os ataques a Joice são misóginos e gordofóbicos e ao mesmo tempo que lembrar que ela já foi misógina." Bingo.

Em sua carta aberta para Joice, Manuela D' Ávila diz que é solidária à deputada e conta alguns dos ataques que sofreu. É chocante ler que sua filha levou um tapa (de uma mulher!) quando tinha 45 dias de idade. Mas, sim, é também absurdo que o filho de Joice Hasselmann, como foi narrado por ela chorando no plenário, tenha recebido montagens pornográficas da mãe, nua, e com a cara feita com uma caricatura de uma porca.  Nenhuma mulher (e nenhuma pessoa) deve ser tratada desse jeito.  

Manuela atenta também que existe machismo no Congresso Nacional, coisa que Joice negava. Segundo ela, era só "levantar a voz que tudo se resolvia". Bem, os ataques que Joice sofre só provam que existe machismo e que ele não poupa nenhuma mulher. E a luta por um tratamento melhor para as mulheres não pode ser seletiva.

Isso quer dizer que você tem que gostar da Joice? Não! Da Manuela? Também não! Mas você pode, sim, discordar sem chamar de porca, sem atacar crianças. Bem, você pode tratá-las da mesma maneira com que os homens héteros públicos são tratados: discordando. Mas sem chamar de mal comido, de gordo e por aí vai. É, sim, possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

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