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Como ser vegano ou vegetariano e não ser chato (é possível!)

Nina Lemos

05/12/2019 04h00

Istock

 Eu sou vegetariana há 30 anos. Sim, antes de muitos de vocês terem nascido. Um dia, adolescente, influenciada por uma música dos Smiths chamada "Meat is Murder" (Carne é assassinato), eu parei de comer carne. Toda minha família achou que era loucura de adolescente e ia passar. Não passou. Nunca mais coloquei carne na boca e pretendo nunca colocar.

Dito isso, fico feliz que o número de vegetarianos e veganos está aumentando (hoje é cerca de 15% no Brasil). É muito legal também que as pessoas tenham mais possibilidades de comprar produtos veganos no geral. Mas, como tudo tem um lado ruim,  o que tenho visto? Um monte de gente se achando melhor que os outros, sendo chato, dando lição de moral e, pior, fazendo o vegano novo rico deslumbrado, aquele que até ontem comia carne e agora sai por aí tendo ataques com pessoas porque comprou uma roupa de grife vegana.

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Sim, eu como leite e ovos. Eu não sou vegana. Um dia, quem sabe, serei. Admiro quem consegue. De verdade. Mas para aí. O que queria dizer é: você pode ser vegetariano ou vegano sem ser chato. E meus amigos todos sabem que eu consigo (posso ser chata em outros aspectos, não nesse). É fácil, na verdade. 

A primeira coisa é: 

1.Você não é moralmente superior por ser vegano/ vegetariano.

Sim, eu disse que admiro os veganos, mas isso não quer dizer que eu ache que os veganos todos do mundo sejam moralmente superiores a mim. Assim como não me acho moralmente superior a ninguém por ser vegetariana. Um exemplo é o próprio Morrissey, o cantor que me influenciou em virar vegetariana. Ele virou um cara que fala coisas horríveis e racistas, mas ao mesmo tempo é militante vegano. Pois é, as coisas não são tão simples. O ser humano é complicado.

2.Não persiga as pessoas

Eu não como carne porque não me sinto bem em comer uma criatura que foi morta. Acho, sim, que os bichos mortos são cadáveres e me sinto mal quando passo, por exemplo, pela parte de peixes do supermercado. Só que, exatamente por achar isso, eu já fui muito perseguida nessa vida. Quantas vezes não ouvi: "você é vegetariana?" Sim. "Mas por quê?" (essa pergunta já não devia ser feita, gente, você também pode ser carnívoro sem ser chato). Na época, não respondia "porque sim", mas explicava o que disse acima, que não comia ser vivo.  E aí sempre vinha alguém e falava: "ah, mas o alface também é vivo, você não tem pena da alface?" Sim, eu passei a vida toda ouvindo esse tipo de coisa. Insuportável.

E, por isso mesmo, não vou ser chata com quem come carne e sair perseguindo pessoas em churrasco. Isso porque… por ser vegetariana em uma época em que poucos eram, eu já fui perseguida. Sim, literalmente. Pessoas já correram atrás de mim com espetinhos de carne achando isso engraçado. Eu juro. Vou fazer o mesmo? Eu não!  Mas como assim, churrasco? Ué, se meus amigos vão, se é aniversário de um amigo, porque não? Eu como a salada, o arroz com farofa e o molho vinagrete! 

3. Não seja Maria Antonieta do veganismo

O preço da carne está subindo no Brasil. Isso significa que muitas famílias não vão poder se alimentar do jeito que querem porque não tem dinheiro. Muito triste. Mas o que algumas pessoas dizem? "Que ótimo, vai aumentar o número de Veganos! Isso é ser meio Maria Antonieta da França, famosa pela frase: "se não tem pão, que comam brioches!" Saia da sua bolha hipster. E, não, o aumento da miséria definitivamente não é bom para o mundo. 

4-Sua filosofia de vida não é a de todos

Ah, mas você é só vegetariana, o veganismo é toda uma filosofia de vida, vocês dizem.  Legal! Mas essa é a sua filosofia de vida, eu respeito. Só que ela não precisa ser a de todas as pessoas. A gente vive em uma sociedade livre, lembra? Temos direito de fazer escolha e inclusive fazer escolhas políticas e defendê-las. Faz parte do jogo. Agora, tentar impor? Achar que é a única certa do mundo? Vocês gostam quando fazem isso com você? Pode ser que um dia eu vire totalmente vegana inclusive como atitude política. Mas isso não vai querer dizer que eu encontrei a luz.

5- Ninguém tem que nada

Ah, mas as pessoas de esquerda TEM obrigação de ser vegana. Ah, mas você TEM que parar de comer carne. Ah, mas você TEM que ser vegano como eu. Não, ninguém tem que nada. E muito menos só porque você quer. Uma coisa que a gente tem é que tentar ser educado e legal. Por isso, me aguardem, continuarei vegetariana. Talvez um dia vire vegana, Mas, sair por aí perseguindo pessoas? Não. Eu juro. É possível.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos