PUBLICIDADE

Topo

Burra, louca: briga de Joice Hasselmann e Carla é desserviço para mulheres

Nina Lemos

06/12/2019 04h00

 

"Você não conhece a lei, você é BURRA, desculpa."

"O quê?  você é LOUCA!" 

Essa é uma pequena parte de um diálogo travado quarta-feira no Congresso Nacional entre duas mulheres: Joice Hasselmann e Carla Zambelli, do PSL.  As duas são deputadas, deveriam representar o povo, inclusive, dar bom exemplo. Mas, bem, não é isso o que anda acontecendo no Congresso (e não se trata só das duas, óbvio).

Veja também

No caso delas, é emblemático o quanto de machismo elas usam para se ofender. Na mesma discussão, travada na quarta-feira, durante a CPI das Fake News, elas também trocaram  "acusações" de "prostituta" e "abortista" e "Peppa", em referência ao desenho animado, ou seja, de "porca."

Joice e Carla talvez não saibam, mas, ao usar essas ofensas, elas dão quase que uma aula prática de como o machismo pode atingir também as mulheres. 

Podemos ser adversárias políticas? Claro! Podemos não gostar de outras mulheres? Óbvio. 

Mas o que as duas fazem é reproduzir o machismo mais básico. Aquele que aprendemos quando éramos crianças (sim, fomos criadas em uma sociedade em que essas coisas eram aceitas) e que, hoje, vemos como era danoso. 

Sim, na escola, a gente pode ter achado que era ok chamar uma inimiga de gorda. Ou, na adolescência, a ex de um namorado de "galinha". Eu realmente não lembro de ter falado isso alto nunca na vida para ninguém (como Carla e Joice falam) mas, enfim, crescemos e vemos o quanto isso é danoso para nós mesmas. 

Existem mil maneiras de discordar de outra mulher sem associá-las a um bicho (isso é o que fazem os haters quando querem atingir uma mulher, tirar sua humanidade, tratar como uma "coisa.") 

Joice e Carla parecem não ter aprendido nada disso. 

Então, vamos lá:

Chamar uma mulher de louca é uma das maneiras mais antigas e tradicionais de desqualificar uma mulher no debate, chega a ser um clichê.  Todo mundo conhece aquelas brigas de casais onde a moça, por exemplo, tem ciúme e o cara responde: "você está vendo coisas, você é louca." Somos loucas, bruxas, histéricas. 

Chamar de burra é outro clichê. "Mulher, claro, tadinha, não consegue entender". E, junto com isso, vem o chamar de feia ou de gorda (sim, coisas que não tem nada a ver com uma discussão, mas é assim que acontece).

A briga das duas, que antes eram amigas, teve outros capítulos tristes e parece que não vai parar tão cedo. Continuou no dia seguinte pelo Twitter, com Joice postando uma foto de Carla e a chamando de "abortista" e "psicopata".

Joice e Carla, com seu barraco público, além de não serem elegantes, prestam um desserviço. Poxa, estamos há tanto tempo mostrar que esses discursos não bons para as mulheres e aí vem duas deputadas e passam a se tratar desse jeito?

E, sim, claro, você pode não concordar com nenhuma das duas. Mas não precisa chamar de louca, de porca, de prostituta… 

E, pensem bem, em um debate normal, que diferença isso faria? E se uma mulher tivesse sido prostituta, o que isso tem a ver com um debate? Chamar uma outra de porca? Como isso se justificaria? Eu acho que de maneira alguma. Mas elas continuam com o circo. Uma aula de machismo. E praticado por duas mulheres. Sim, acontece.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.