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Mulheres e negros estão fora de melhores do ano. Os novos tempos acabaram?

Nina Lemos

11/12/2019 04h00

O Irlandês é um dos filmes que concorre ao Globo de Ouro de melhor filme. O diretor é Martin Scorcese (Divulgação)

Desde 2017, a indústria de Hollywood prometeu ficar mais "inclusiva" (a palavra está em aspas porque colocar mulheres e negros na mesma situação que homens brancos deveria ser o normal, já que somos mais da metade da população).  As coisas pareciam estar mudando quando, em 2017, o escândalo do "Me Too" apareceu, levando mulheres do mundo todo a falar não só sobre assédio, mas para gritar pelos mesmos direitos também em Hollywood, onde foi criado o movimento "Times Up".

 Em 2018, por exemplo, entrou para a história a cerimônia do Globo de Ouro, quando todas as mulheres foram vestidas de preto em protesto contra o assédio e também por igualdade de salários (e de trabalho, prêmios, valorização). Os movimentos das mulheres foram homenageados também no Oscar. E o ano passado foi o ano em que mulheres e negros foram mais premiados no Oscar. 

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Ao mesmo tempo, as revistas que publicam aquelas capas de "melhores do ano" também pareciam ter detectado que o mundo não era mais "o macho adulto branco sempre no comando."  Em 2017, a revista americana "Times" publicou pela primeira vez uma capa de personalidades mais importantes do ano apenas com mulheres. Lá estavam aquelas que lutaram pelo #MeToo e também por mais respeito para mulheres em Hollywood.

A gente existia, olha só. Assim como gays, pessoas com deficiência, pessoas gordas. Que beleza! Só que, pelo jeito, isso só durou dois anos. Pelo menos é o que parece quando olhamos as indicações para o Globo de Ouro, divulgadas na segunda-feita. 

Pelo jeito, "a mudança" era só para inglês ver, ou melhor, para calar a boca… das mulheres, dos negros, dos gays e dar uma "repaginada" na indústria de entretenimento. Olha, nós agora somos inclusivos! Olha, agora percebemos que vocês existem e, nossa, vocês até falam e inclusive são inteligentes!

Dois anos depois, o cenário não é tão positivo. De novo, estamos voltando para nosso lugar de origem (acompanhando esposos que ganham prêmios?). 

Aos fatos. No Globo de Ouro que elegerá os melhores de 2019,  nenhuma mulher negra foi indicada para o prêmio de melhor atriz de TV. A tal inclusão simplesmente deixou de lado TODAS as atrizes negras ou latinas. Isso, claro, em um momento em que as plataformas de TV, como HBO e Netflix tentam, sim, colocar atores de diferentes etnias nas telas. Mas, nenhuma delas vai voltar para casa com um prêmio. No mundo, a premiação já está sendo chamada de "Dolorosamente branca."

Na parte de direção de cinema, as notícias também não são boas. As mulheres também não foram indicadas.

A revista "Variety" fez uma lista de filmes dirigidos por mulheres que poderiam (e deveriam, oras) ter sido indicados, mas não foram.  Ficaram de fora, por exemplo:  Greta Gerwig, diretora de "Adoráveis Mulheres" e  Marielle Heller, de "Um Lindo Dia na Vizinhança". Entre outras..

Não é mimimi, é matemática

E no Brasil? Bem, por enquanto, a tal "hora das mulheres" parece que era só uma moda mesmo. Eu sei que a nossa hora é todas as horas, mas estou falando da mídia e do mercado. 

Um caso emblemático que provocou muitas críticas na internet foi o da premiação dos melhores do ano da Internet. Os agraciados foram 13 pessoas. Desses, apenas 3 eram mulheres. E os negros, bem, eles foram representados por uma pessoa (homem, claro). Espera. Cadê Maju, Emicida, Thais Araújo, Gaby Amarantos, Ludmilla e tantos, tantos outros que quebraram tabus e brilharam esse ano? De fora.  

"Ah, mas os brancos e homens ganharam mais prêmios porque eles foram melhores". Jura que você ainda acredita nisso? O quanto mais fácil é para um homem branco padrão ganhar um prêmio? Se você acha que tudo isso é "mimimi" e mania de perseguição, exemplos que não deixam dúvidas quanto a discriminação:

Sabe quantas mulheres já ganharam um Globo de Ouro de Melhor Direção? Uma. Barbra Streisand, em 84.

No caso do Oscar, mais de 33 mil estatuetas já foram entregues desde a criação do prêmio. Apenas 44 delas foram para negros.  

E sabe quantas mulheres já ganharam o prêmio de melhor direção?  Uma. E apenas 5 foram indicadas na história na categoria. Não é mimimi. É matemática…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.