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Monick Camargo e Milena denunciam agressão: Insta virou pedido de socorro

Nina Lemos

18/12/2019 16h33

Entre a noite de terça feira e a madrugada de quarta feira,  duas mulheres brasileiras influenciadoras usaram o Stories do Instagram (uma das redes sociais mais populares, onde você pode postar vídeos) para denunciar casos de abuso. Duas. E isso porque, no caso, elas são conhecidas, populares. Em vídeos gravados em horas de desespero, elas choram, mostram hematomas.

Impossível olhar para os pedidos desesperados de socorro da ex-Fazenda Monick Camargo e de Milena Bemfica, esposa do jogador Jean, do São Paulo, e não sentir desespero e ver semelhanças.  "Me ajuda". "Meu deus, ele me bateu", são as frases ditas por elas nos vídeos que circulam pela internet, enquanto exibem machucados.

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Milena postou o vídeo de Orlando, onde passava férias com a família, acusando o marido, o goleiro Jean. Se duas mulheres, no mesmo dia, tiveram a mesma atitude e passaram pelo mesmo desespero, impossível não pensar em quantos casos semelhantes acontecem todos os dias no país onde a cada quatro minutos uma mulher é agredida. E em como esses números estão crescendo. 

Monick e Milena tiveram atitudes semelhantes. Na hora do desespero, postaram, denunciaram, pediram socorro. Depois, apagaram. E tem quem julgue as duas por apagar. 

Julgar? Tente se colocar no lugar delas. Imagine o desespero na hora, a vontade de denunciar e a necessidade de pedir socorro. Depois, nos casos de violência, como nos traumas em geral, vem a chegada de todos aqueles sentimentos confusos: culpa, medo, vergonha. Claro, não é racional. Nenhuma mulher é culpada por apanhar. Mas quem consegue ser racional depois de uma situação dessas? Ainda mais em uma sociedade que culpa a mulher o tempo todo? 

Milena exibiu, além de seus machucados, uma troca de mensagem que teve com o marido. Na conversa ele diz: "você destruiu a minha carreira, suas filhas vão passar fome." Bem, primeiro que as filhas não são só dela, mas dele também, certo? E a mensagem já é uma clara culpabilização. Escuta, se a cadeira do jogador acabar (o que acho que seria justo) a culpa é dele, que agrediu a mulher. Fim.

No caso da ex BBB Monick, ela mostrou hematomas no rosto e disse que o noivo a teria chamado de puta porque ela teria se recusado a participar de uma orgia. 

Bem, nenhum homem pode forçar uma mulher a fazer algo sexualmente que não queira, óbvio. Agora, os motivos fazem diferença? Ou o que importa é que ela foi agredida, machucada, ferida, entrou para as estatísticas de violência doméstica e que, pelo que ela contou, mais uma vez, um parceiro violento foi responsável por ferir uma mulher?  

Quem diria que o Stories, um lugar usado pelos famosos principalmente para mostrar suas vidas glamourosas, presentes recebidos e momentos felizes fosse virar uma plataforma de denúncia de violência e de um espaço de pedido de socorro? Isso é seríssimo. E um retrato dos tempos perigosos em que vivemos como mulheres. 

Quanto a nós, que assistimos a isso como espectadores, cabe não julgar, ter empatia e apoiar essas mulheres (e todas as outras vítimas de agressão). "Ah, mas e se não registrarem queixa?" "Ah, mas se perdoarem?". Não estamos na pele delas para saber o que vivem. E toda atitude, mesmo as incoerentes, podem acontecer em relacionamentos abusivos e depois de agressão. E vale repetir o de sempre, claro: elas são as vítimas. Não devem ser culpabilizadas.  E não, essa violência não pode ser naturalizada.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.