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Ciro Gomes "bêbado", viraliza e todos acham lindo: e se fosse mulher?

Nina Lemos

25/12/2019 04h00

O dia em que olharem para uma mulher assim… (iStock)

Essa semana, viralizou na Internet um vídeo de Ciro Gomes, do PDT, andando pela rua parecendo bêbado e carregando uma garrafa de uísque. Ele para em um bar e chama o Bolsonaro de ladrão. Ok. E atenção, esse não é um texto sobre política.

Depois do vídeo postado, oponentes o chamaram de alcoólatra (acusação grave, alcoolismo é doença) mas muitos outros saíram por aí comentando que ele era lacrador, praticamente um mito, incrível, "bacanão".  Claro, as pessoas podem beber. Não é da minha conta. Longe de mim ser moralista. Mas… e se a pessoa fotografada fosse uma mulher?

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Sim, essa foi a primeira coisa que pensei quando vi o video: e se fosse uma mulher da política filmada andando na com uma garrafa de uísque? Ela seria detonada. Uma mulher andando na rua daquele jeito, desarrumada, meio tropeçando, seria uma "acabada", "maluca", "baranga". Imagina se fosse a Dilma, a Manuela D'Ávila, a Marta Suplicy, a Janaina Paschoal,  qualquer uma? Ela seria detonada por todos os lados.

Será que ficar bêbado e ter isso considerado meio maneiro também é um privilégio de homens, principalmente os brancos? Sim, um homem negro com uma garrafa na rua pode ser perigoso para ele, que provavelmente evita isso por segurança. 

Eu não bebo. Nada. Nem uma gota. Mas, claro, quase todas minhas amigas (e amigos) bebem. Algumas delas já comentaram comigo o quanto foram maltratadas por ficarem bêbadas em público. Bêbada com mais de 40, então? Nossa, "coitada, está com problemas". "Coitada, isso é falta de homem." Quanto aos homens, bem, algumas de nós (até eu em alguns momentos da vida) pensamos: "que sexy. Ele fica engraçado quando bebe." "Ele é um charmoso." "O mundo é muito difícil para ele. Tadinho." E lá vamos nós, cuidar da ressaca alheia.

Há alguns anos, a atriz Leticia Sabatella foi fotografada  bêbada. O que aconteceu com ela? Escândalo! Ela foi parar no primeiro lugar do Trend Topics Brasil, aquilo de sempre. O fato de uma mulher famosa ser vista bêbada foi considerado um vexame. Ela não foi vista como alguém que estava apenas curtindo a vida. E, pelo jeito, ela estava. Na época, ela escreveu no Facebook: "Que auê por causa de uma noitada de cantoria e pisco sauer com os amigos! Deitar no chão de tanto rir e beber do céu as estrelas! Quem não precisa rir de si mesmo de vez em quando? Me recuso a sentir vergonha com esta pedra moralista com que tentam me atingir. A vocês, queridos acusadores, ofereço um Brinde!"

E no Natal?

Hoje, dia de Natal, acredito que muitos de vocês estejam de ressaca (ou vão encher a cara hoje — de novo).   

Mas no Natal as mulheres estão liberadas para ficarem bêbadas, certo? Pergunto para a parceira Luciana Bugni, editora e blogueira aqui do Universa. "Não, a mulher tem que lavar a louça", ela diz. 

Concordo com ela. A mulher, no Natal, pode até beber. Mas, claro, ela está pensando na louça que vai lavar (que, sim, na maioria dos lares ainda sobre para a gente), em aplacar brigas familiares (sim, na maioria dos lares isso também ainda sobra para a gente). Tempo para ressaca? Bem, vamos cuidar lavando a louça… E, claro, se alguém da família ficar loucão e sair carregando uma garrafa de uisque pela rua e se meter em briga política, provavelmente quem vai sair atrás do homem, tentar acalmá-lo e voltar para casa? Uma mulher!

Se você, leitora mulher, estiver de ressaca hoje, chame os homens (que também estão de ressaca) para te ajudar. E se você for um cara, engula a ressaca e lave a louça. Ajuda a curar, dizem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos