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BBB tem elenco mais jovem em cinco anos. Mulher mais velha tem 35. Como?

Nina Lemos

22/01/2020 04h00

A participante mais velha do BBB 2020

O Big Brother Brasil estreou ontem sua vigésima edição. E, em um tempo em que se discute o etarismo (preconceito contra a idade), bateu praticamente um recorde (negativo). A média dos participantes é de 20 e poucos anos, a mais "baixa" desde 2014. O homem mais velho tem 40. A mulher mais velha, 35.

Nada contra os jovens. Agora, isso é um retrato do Brasil? Onde estão mas pessoas com mais de 40 anos? Olhando para o BBB, que é, ou devia ser, sim, uma pequena amostra da sociedade brasileira, a gente, que tem mais de 40 anos, não existe. A população brasileira seria formada exclusivamente por pessoas de 20 e poucos anos. Chato, não?

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Não é de hoje que o programa é dominado por jovens belos, corpos malhados e dentro do padrão. Mas, nos últimos anos, nós, mulheres dos seus 50 (ou mais), fomos representadas com uma espécie de cota minima (mínima mesmo, a média foi de uma mulher madura por edição!).

 Agora, em pleno 2020, quando o preconceito contra a idade (que atinge mais mulheres, mas atinge os homens também) é mais debatido do que nunca, e deveria ser eliminado, como tantos outros, a Globo dá essa mancada ao anunciar os participantes

Sim, vivemos em um tempo em que revistas de moda como a Vogue estampam mulheres mais velhas em suas capas e o mercado parece ter acordado um pouco para o fato da gente existir, colocando mulheres de 60 anos para, por exemplo, ser o "rosto" de um creme para mulheres de… 60 anos! Parece pouco (e é mesmo), mas já é alguma coisa.

No caso do BBB, o problema não é só pelo fato que de pessoas de seus mais de 50 precisem ser representadas. Quem perde é o programa, ao não mostrar variedade. Claro que uma conversa que inclui pessoas de idades e experiências diferentes é mais interessante. Não é óbvio?

Nos últimos cinco anos, a direção do programa parecia ter acordado para esse fato e nos brindou com uma vaga por ano no programa. Ano passado, foi a vez da psicanalista Tereza, de 52 anos. Em 2018, a vaga da mais velha foi ocupada pela cientista política Mara, então com 53 anos. 

As duas não fizeram muito sucesso e não se enturmaram. Mara foi a primeira eliminada. Tereza, a sétima. E, quando saiu, desabafou que se sentiu um peixe fora d'água dentro da casa. "Eu me senti sim injustiçada… Me senti sem apoio na casa, e também acho que, por ser mais velha, fiquei nessa situação. As meninas são lindas, infelizmente a juventude grita."

 Não deve ser fácil, mesmo, ser a única pessoa de mais de 40 ou 50 em um ambiente dominado por jovens. Mas o programa poderia resolver isso não eliminando os participantes maduros de vez, mas talvez colocando mais e mais deles, não? 

BBB mais velha da história

Em 2017, veja só, uma mulher de 70 anos quase ganhou o BBB! Sim, era para isso ser uma coisa normal. Mas um ponto fora da curva. Leda, aposentada, ficou em terceiro lugar. Incrível!

Em 2016,  a jornalista Harumi, de 64, foi a primeira a ser eliminada. Um anos antes, foi a vez de Marisa, então com 51, fazer sucesso, ter fãs, mas ser eliminada antes da final.

Lembro bastante da participação da Marisa porque assisti o programa todo e torci para ela. Marisa agia como uma mulher normal, dava suas surtadas, chorava, batia papo, tinha um melhor amigo e uma conversa interessante. Dentro do programa, sofreu todo o tipo de preconceito. Era um tal de participante arrogante de 20 e poucos anos falando que "ai, morreria de vergonha se a minha mãe fosse igual a ela e dançasse". Assistir o programa, às vezes, foi dureza. Mas, se esse preconceito existe, melhor que seja mostrado, não escondido.

Esse ano, os jovens do BBB não precisarão se sentir "incomodados" por essas presenças mais velhas. Elas simplesmente não existem. Uma pena, inclusive porque boa parte das pessoas que assistem ao programa tem, sim, mais de 50. Mas a Globo parece não se importar com isso…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos