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Fontenelle: "estou velha para o Carnaval". Existe idade limite para algo?

Nina Lemos

17/01/2020 04h00

"Estou velha. Tenho que saber a hora de parar." A frase é da atriz Antônia Fontenelle, que declarou que esse ano se despede dos desfiles de escola de samba. Cada um faz o que quer. E Antônia, se quer parar, tem todo o direito, óbvio. Mas velha? Antônia tem 45 anos, é bonitona dentro do padrão e nem é velha. Mas e se tivesse 70? Existe idade para se divertir? Mulher passa do prazo de validade? Muitos insistem que sim. Mas cada vez mais mulheres gritam de volta que: não!!!

Até um tempo atrás (e até hoje, mas cada vez menos). A frase "velha para isso" era usada para muitas coisas. Mulheres de quase 50, como eu, estariam velhas demais para usar shorts, velha demais para ir para à balada, velhas demais para usar biquíni, velhas demais para ter cabelo comprido. Velha demais para ser feliz, basicamente. Era como se depois de completar uma determinada idade a gente tivesse que se trancar num armário, trajando roupas discretas, de preferência. E só saísse para fazer programas adequados, tipo, chá com as amigas.

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As coisas estão melhorando (não por milagre, mas porque mulheres mais velhas estão mostrando que continuam fazendo o que querem e quebrando o armário em que nos queriam trancadas a marretadas). Praticamente todas as semanas, Jane Fonda, de 82 anos, vai presa por protestar pelo meio ambiente.

No caso do Carnaval, Susana Vieira foi rainha de bateria em 2017 com 74 anos. E arrasou. Ano passado, não desfilou, devido a problemas de saúde, mas brilhou nos camarotes ao lado de Glória Maria, que também seria "velha demais" para um monte de coisa que faz (porque gosta. A gente não deve continuar fazendo as coisas que gosta?). 

Clever Feliz/Brazil

Susana Vieira, por exemplo, que enfrenta uma leucemia, não é velha demais para dançar. E se esbaldou no Rock in Rio do ano passado aos 77 anos.  Errada? Não! Certíssima! Ano passado, Claudia Raia arrasou no Carnaval aos 52 anos, de maiô decotado e sexy. 

E o que dizer de Madonna? Em seu show atual, "Madame X?", Madonna usa corpete, shortinho, todos os modelos que usou a vida toda. Recebe milhares de críticas. Responde a elas usando mais modelos sexys, se divertido e cuspindo na cara dos caretas. 

Claro, as mulheres que continuam sendo elas mesmas até a época que querem pagam um preço. E, claro, ele é maior do que o pago pelos homens. Susana Vieira, com suas pernas de fora no Rock in Rio, não provocaria a mesma reação de choque que um Antônio Fagundes  da vida fazendo a mesma coisa. E não, não estou criticando os homens que fazem o que querem com a idade que querem. Eu só acho que as mulheres têm o mesmo direito. E que, logo, devemos pleitear o direito de fazer o mesmo sem críticas e comentários do tipo "ohhhhh". 

Exemplo: Mick Jagger, 76 anos, 15 anos mais velho que Madonna, é tão criticado como ela por rebolar? Não! E não, pelo amor de deus, Mick, não pare de dançar, nem você nem a Madonna! A gente precisa de vocês fazendo exatamente o que fazem. 

Velha? Não. Cansada, sim.

Uma coisa que acontece depois que a gente passa dos 40 (e não é ruim) é que a gente passa a ter menos paciência para algumas coisas. Lugar muito lotado, perrengue, por exemplo… A gente não se sente mais obrigado, o que é ótimo. Sim, quando a gente é mais nova se sente na obrigação dee fingir que gosta de um monte de coisa que odeia.

Exemplo pessoal. Passei muito réveillon em Copacabana fingindo que gostava. Hoje, não vou nem morta. Por isso, entendo quem se canse do Carnaval. Mas uma coisa é "estar velha demais", outra coisa é não ter mais paciência. Sim, todas nós às vezes soltamos (em geral para a gente mesma) um "não tenho mais idade para isso." É quase um hábito. Minha dica: você não está velha se realmente quiser fazer alguma coisa (faça!). Mas se estiver sem paciência, ah, aproveite a maravilha da idade que é livrar da síndrome do "tenho que ir". É ótimo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos