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Isis, Sandy: até quando vamos criticar as mães (na internet e fora dela)?

Nina Lemos

12/02/2020 04h00

Reprodução Instagram

Parece piada, mas não é. Semana passada, a atriz Isis Valverde postou uma foto no Instagram de seu filho Gael de roupão perto de uma piscina. Em meio a muitos comentários de "ah, que fofura", apareceram muitos outros do estilo: "Cuidado, ele está muito perto da piscina", "será que tem alguém olhando?", "se fosse meu , não teria deixado tão perto da piscina". E o fato foi parar em sites de notícias.

Juro que quando li a nota "Isis Valverde criticada por clicar filho perto da piscina" eu até ri de tamanho absurdo. Lembrando que a mesma atriz, desde que virou mãe, já foi criticada por "exibir um corpo muito magro" depois de ter filho (!), por trabalhar um mês depois do parto e também por viajar sem o filho!!!

Não deve ser fácil ser mãe em épocas de rede social, com tanta gente vigiando.

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A mulher (porque vamos lembrar que esses filhos têm pai, mas deles todo mundo esquece) é criticada depois de ter filho se emagrece rápido. E, claro, também é criticada se não emagrece.

A humorista Tatá Werneck, por exemplo, foi fotografada esta semana depois de ter tido a filha Clara Maria, de três meses. Na hora, alguém perguntou se ela estava grávida. Escuta, ela teve o filho há três meses! Tatá respondeu na hora que "tinha direito a ter uma barriga imensa". E o que aconteceu? Ela foi criticada po ser grossa!

Sim, você é condenada por causa da sua aparência. Se você responde à crítica, foi grossa. Fantástico, não? No caso de Tatá, as coisas estão apenas começando, já que sua bebê só tem três meses. Se o modus operandi de tratar mães na internet (e na vida)  continuar o mesmo, ela vai ter mais do que reclamar conforme a filha crescer.

Os motivos para censurar uma mãe podem ser os mais variados. A cantora Sandy, por exemplo, foi criticada mês passado por colocar seu filho de 5 anos em um carrinho da Disney. "Ele não está muito grande para isso?", comentaram as pessoas que, obviamente, não têm nada, mas nada a ver com isso. 

Nesta semana, foi a vez da ex-ginasta olímpica Shawn Jhonson causar "polêmica" ao postar um vídeo da filha de 3 anos fazendo "um giro" (no seu colo, claro. E sim, ela sabia o que estava fazendo). A polêmica foi tão grande que as TVs americanas chamaram até pediatras para opinar!

Fora das redes

Claro, o olhar crítico para mães não acontece só em redes sociais e não só com os famosos. No mesmo dia em que li que Isis tinha sido criticada por deixar o filho perto da piscina (atenção, claro que tinha alguém olhando, ei, ela não é louca, ei, cuidem da própria vida), uma amiga me conta que passou pela seguinte situação: ela se arrumava para uma reunião importante no trabalho, sua filha não deixava que ela se maquiasse. Ela estava cada vez mais atrasada e nada de a filha querer calçar o sapato. Minha amiga saiu de casa correndo e, para que a criança se convencesse a acompanhar a mãe,  deixou que ela entrasse no elevador com o tablet na mão vendo um filme. No elevador tinha um cara que ficou olhando para ela com olhar de reprovação. Ou seja, além de atrasada, estressada e desesperada, ela ainda ficou com vergonha. 

Pense nisso quando você ver uma mãe fazendo algo que você desaprova: você não sabe pelo que ela está passando!!! Você não sabe o que aconteceu antes da cena que você viu. E, claro, isso não é da sua conta!

Uma prova enorme disso (que a gente não deve julgar antes de entender o que estava acontecendo) aconteceu mês passado. Alguém viu uma mãe andando com um filho "na coleira" na rua em Minas Gerais, fotografou e postou na internet falando "olha, que absurdo". A foto viralizou pelos quatro cantos. Até que a mãe (ah, atenção, fotografar gente sem autorização, ainda mais criança, é crime) viu sua própria foto circulando, e sua fama de pior mãe do mundo se espalhar.

Amanda Massoni, de 27 anos, disse, em entrevista no programa "Encontro com Fátima Bernardes", que ela passou por dias de medo, com receio de até apanhar na rua. Ela explicou também que seu filho tem autismo e que usa a mochila como proteção.

Amanda sabe que foi vítima de um crime e fez boletim de ocorrênca em Passos, onde mora. 

Que vergonha para quem criticou, não? Esse caso devia servir de tapa na cara para quem faz esse tipo de coisa. A internet nos transformou em tias fofoqueiras que saem gritando: "Não faça isso com o menino!", "você está errada!". E, sim, claro, as criticadas na maioria das vezes são mulheres. Homem que esquece de passar protetor solar no filho, por exemplo, costuma ser olhado com condescendência e carinho. Afinal, eles são fofos que estão tentando e, olha, eles até cuidam do filho!

É fácil a gente mudar nosso olhar, não? Afinal, fomos criadas em uma cultura onde as mães são as únicas responsáveis pelos filhos (até parece) e alvo fácil. 

Confesso, eu também julgo. Hoje mesmo, vi uma cena inusitada. Uma menina de uns 5 anos esperava pelo ônibus sozinha (o que é comum na Alemanha, onde moro). Mas, no caso, achei a menina pequena demais e a primeira coisa que pensei foi: "Cadê a mãe dessa criança?". Sim, eu não pensei em culpar o pai. Mas pelo menos eu não tirei uma foto da menina e espalhei na internet…

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos