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E homem se vestir de mulher, pode? Deve. Explico por que

Nina Lemos

21/02/2020 04h00

"Homem se vestir de mulher, além de ser machista, é desrespeitoso com as mulheres. A fantasia é preconceituosa com as pessoas trans e apenas reforça os estereótipos de gênero."

Esse é um trecho de uma cartilha feita pelo conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial (Compir) de Belo Horizonte. A cartilha dá algumas dicas sobre como se fantasiar no carnaval sem ser ofensivo. Não vou me estender aqui sobre se vestir de índio etc e outras polêmicas do pré Carnaval. Agora, como mulher, posso falar: eu nunca na vida me senti desrespeitada porque um homem se vestiu de mulher no Carnaval. Nunca.

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Claro, já me senti desrespeitada quando homens vestidos de mulher puxaram meu cabelo ou passaram a mão na minha bunda. Mas me sentiria da mesma forma se eles estivessem vestidos de ET de Varginha ou de Astronauta Maluco. 

Pelo contrário, eu sempre achei legal que os homens se vestissem de mulher pelo menos uma vez no ano (por mim, poderia ser até mais). 

Sempre achei ótimo que os homens tirassem a fantasia de macho (não deixa de ser uma, certo?) e as trocasse por batom e perucas.

Além de engraçado, acho que isso é libertador para eles. Sim, eu conheço homem que acha que "usar cachecol não é coisa de macho". Sim, isso é ridículo. Mas deve ser bem chato viver dentro de normas tão rigidas, né? Se o cara que acha que rosa é coisa de mulher colocar uma fantasia pink uma vez por ano, eu penso: nossa, pelo menos um dia! E… desculpa aos que pensam diferente, mas, segundo psicanalistas com quem conversei, eu estava certa de achar que poderia ser bom. 

Palavra de especialista

"Não só acho que é legal como acho que é importante, que pode ajudar o homem a furar essa clonagem com sua heterossexualidade. Se ele consegue ser crossdresser por um dia, isso é excelente", diz a psicanalista Aline Acciolly Siero.

"O Freud falava muito da importância do humor. Brincar com o inconsciente é muito bom. Se o homem só performa a heterossexualidade e a ele é permitido brincar um dia, isso é um excelente prognóstico", diz. O Carnaval, segundo ela, é uma ótima hora para essa brincadeira saudável acontecer:  "O Carnaval é uma ocasião em que as pessoas se livram da autocensura. Acho importantíssimo permitir que homem brinque com a identidade feminina. Acho, inclusive, que nós, mulheres, devemos defender essa liberdade". 

Ela lembra de outro detalhe importante. Nós, mulheres modernas e feministas, não vivemos dizendo que cada um usa a roupa que quer e que meninos não tem que vestir rosa e menina vestir azul? Pois então, não seria contraditório dizer o que pode e o que não pode ser vestido no Carnaval.

A psicanalista Ana Bellan lembra que, para um segmento jovem, fazer a inversão está até fora de moda. "Eles já fazem isso no dia a dia. Para alguns homens, pode haver essa libertação, sim. Mas temos que ficar atentas. Cada fantasia significa uma coisa para cada um."

Ela defende ser mais importante que se discuta as fantasias mortíferas e onipotentes. "É mais preocupante a fantasia de abusar, ser onipotente, atuar de um jeito horrível com mulheres. Temos que ficar atentas a isso. Se for só uma brincadeira, é só uma brincadeira", ela diz. 

Resumo, adaptando o Criolo: pode brincar, mas sem abusar!

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos