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"Queria dar": frase de Bolsonaro sobre repórter é ataque a todas mulheres

Nina Lemos

18/02/2020 14h38

Gabriela Biló/ Estadão Conteúdo

"No depoimento do Hans, ele diz do assédio da jornalista. Ela queria um furo (risos da claque). Ela queria DAR um furo a qualquer preço contra mim". Quem disse essa frase, na manhã de hoje, fazendo piada em meio a risos de sua plateia, foi o presidente da República, Jair Bolsonaro. A repórter em questão é Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo,  que foi caluniada e agredida na semana passada na CPI da Fake News, quando o depoente, Hans River ofendeu a jornalista ao dizer que ela teria se insinuado para ele em troca de informações.

A frase do presidente foi dita em uma das suas coletivas matinais, aquelas em que ele costuma, entre outras coisas, dar bananas para jornalistas.

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Mas, atenção! O caso aqui não é apenas contra Patrícia ou só contra nós, jornalistas. É contra todas as mulheres. É triste ver o vídeo em que o presidente fala essa atrocidade. É deprimente ouvir que mulheres riram da "piada".

Falar que uma mulher, cumprindo seu trabalho, "queria dar" é um ataque contra qualquer profissional. Além claro, de ser de uma baixeza absurda, que não pode ser aceita em nenhuma profissão.

Se um chefe de escritório disser, por exemplo, que a secretária quer "dar", ele pode ser processado por assédio. O mesmo vale para o patrão de uma empregada doméstica (que pode, sim, viajar para a Disney se quiser!). Se ele disser que ela fez alguma coisa no trabalho porque queria "dar", o nome disso, de novo, é assédio.  É inadmissível contra qualquer mulher, seja qual for sua profissão. 

Ao falar uma coisa dessas, além de ofender a todas nós, o presidente dá o (mau) exemplo e praticamente autoriza o assédio moral contra mulheres em ambientes de trabalho. Se um sujeito quiser fazer esse tipo de "piada" contra uma colega, seja onde for, ele vai achar que pode, afinal, "até o presidente faz o mesmo! E olha só, todo mundo ri! Que engraçado! Ri muito quando me mandaram pelo grupo de whatsapp!"

Claro, a vida da mulher no Brasil, que já não é segura, fica ainda mais complicada em qualquer ambiente quando o presidente do país acha engraçado falar que uma repórter "queria dar".

O Brasil não é um país fácil para ser mulher. Não conheço nenhuma mulher que nunca tenha ouvido um absurdo na rua, tenha sido chamada de galinha ou sofrido assédio em transporte público. Todas nós já fomos agredidas. Todas.  

Como vamos parar com esse ciclo, falar que isso está errado, é inaceitável, quando o próprio presidente da república age de uma maneira dessas?

O comportamento agressivo de Bolsonaro contra mulheres não é novidade. Vale sempre lembrar que ele é famoso no mundo todo por ter dito que a então colega, a deputada Maria do Rosário, "não merecia ser estuprada". Ela a processou. E ganhou. Bolsonaro teve que pedir desculpas e foi considerado culpado por danos morais e teve que se retratar à deputada. 

E agora? Quem vai pagar pelos danos morais feitos a todas nós, mulheres brasileiras trabalhadoras? Quem?

 

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.