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Chris Flores, Lívia Andrade e o mito da rivalidade feminina

Nina Lemos

07/04/2020 04h00

Divulgação

Qualquer pessoa tem problemas no trabalho. Faz parte. No caso de quem trabalha com televisão, muitas vezes, descontentamentos de chefes podem levar a medidas drásticas, como, por exemplo, um apresentador ser tirado do ar e substituído por outro. Aconteceu com a apresentadora Lívia Andrade, do programa Fofocalizando do SBT . Um dos motivos apontados seria o fato dela ter falado no programa sobre pastores que vendem álcool gel por 500 reais, comentário que teria desagradado seu chefe, Silvio Santos. Se for isso mesmo, lamento. 

Por enquanto, Lívia não disse qual foi o motivo, nem o SBT. Mas parte da mídia e dos telespectadores acharam rapidinho um motivo: a culpa seria de outra apresentadora do programa, Chris Flores, que teria puxado o tapete da amiga. Claro, gente. Não é óbvio (contém ironia)?

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Diz o senso comum que mulher não suporta mulher. E, mais ainda, que somos pessoas más, sempre dispostas a puxar o tapete de uma das outras. Somos rivais. Concorrentes. "Mulher sempre compete com mulher", diz aquele cara, sem nenhum embasamento científico. Inclusive, as pesquisas dizem o contrário.

Segundo estudiosos, homens são mais competitivos que mulheres. E, em geral, nós gostamos mais de trabalhar com mulheres do que com homens. Mas de que adiantam pesquisas e dados? A "fake news" da competitividade feminina é tão antiga que fica difícil de desmontar. Até muitas de nós, inclusive, acreditam nisso. E saem por aí falando "não confio em mulher", como se não falassem delas próprias.

No caso de Lívia Andrade e Chris Flores, a resposta foi rápida. Ao ver um seguidor falar que Chris teria puxado o tapete da colega de trabalho, a apresentadora respondeu na hora: "Eu também espero que a minha amiga volte. Jamais puxaria o tapete de alguém, principalmente de quem amo e respeito. Minha consciência está tranquila e a Lívia sabe", escreveu.

Até quando nós, mulheres, vamos ter que reforçar que somos amigas uma das outras e, mesmo assim, receber comentários de desconfiança?

Histórias de rivalidade feminina são criadas e alimentadas desde o começo da mídia — as cantoras Emilinha e Marlene eram "inimigas" nos anos 50. Em Holywood, Joan Crawford era inimiga de Bette Davis.

Mais recentemente, por mais que a palavra sororidade faça cada vez mais parte do nosso vocabulário, continuam dizendo, por exemplo, que Sandy não gosta de Wanessa Camargo, Bruna Marquezine de Marina Ruy Barbosa, Kate Middleton é inimiga de Meghan Markle. 

Já repararam que ninguém diz que o  Junior é inimigo do Michel Teló? Ou que Chitãozinho e Xororó se odeiam? E por acaso alguém inventou que o casal Megan e Harry deixou a realeza porque, na verdade, William e Harry não se dão bem?

Claro que não. Afinal, homens são "parças", "brothers", "amigos de fé, irmãos e camaradas". Por sinal, se Roberto e Erasmo fossem mulheres, provavelmente várias brigas já teriam sido inventadas sobre eles. Inclusive, com uma grande ajuda de alguns colegas jornalistas. É triste. E antigo demais. Estamos em 2020. Vamos mudar, gente. Não estamos mais na Era do Rádio.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos