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"Jeffrey Epstein: Poder e Perversão" mostra impunidade de pedófilo rico

Nina Lemos

01/06/2020 15h56

Reprodução Netflix

Ele era amigo próximo de Donald Trump, hoje presidente dos Estados Unidos. Também era próximo de Bill Clinton, ex presidente norte americano. A lista de amigos poderosos contava também com príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth, da Inglaterra. O chocante é que o milionário Jeffrey Epstein, que morreu ano passado na prisão, era também um pedófilo em série, estuprador e envolvido com tráfico de mulheres. 

Essa história está narrada no documentário "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão", que estreou semana passada na Netflix. O que vemos, em quatro episódios de uma hora, são vítimas lutando (sem sucesso) para serem ouvidas. E um homem que conseguia se safar da justiça graças aos seus contatos com poderosos e ao seu dinheiro.

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Assistir ao filme é uma aula sobre o quanto a justiça dos Estados Unidos pode ser falha. Graças a dinheiro e ligações de poder, um criminoso pode passar décadas impune, enquanto vítimas lutam para se recuperar de sequelas de estupro e abusos e não conseguem ajuda nem do FBI. 

"Mulheres jovens"

"Ele é um grande amigo. O conheço há 15 anos. Ele gosta de mulheres lindas e jovens". A frase foi dita por Donald Trump em 2002. Só que o "amigo" do então empresário não gostava de mulheres jovens, mas de crianças de 12, 14 anos… E as estuprava. 

A primeira acusação contra o empresário foi feita em 2004, pela madrasta de uma menina de 14 anos da Florida. Na ocasião, ela ligou para a polícia denunciando que a menina foi convidada por uma amiga de escola para ir na casa de Epstein, onde teria sido abusada.

Na série da Netflix, vítimas relatam como funcionava o esquema de Epstein. Ele pagava adolescentes para que elas levassem amigas da escola para visitá-lo em sua mansão e fazer uma massagem. A tal massagem, na maioria das vezes, acabava em abuso de meninas de 12, 14 anos. No documentário, uma delas, agora adulta, conta ter levado mais de 20 meninas.

O milionário tinha também uma ilha particular no Caribe, onde aconteciam cenas de pesadelos, com mulheres sendo estupradas. Segundo um funcionário que trabalhou para Epstein, um dos visitantes da ilha, que era conhecida na cidade como a "ilha da pedofilia" foi Bill Clinton. "Eu vi Clinton na piscina com uma menina", conta. Uma das vítimas também corrobora a versão. Clinton chegou a fazer várias viagens no avião do milionário, que era usado também para tráfico de mulheres.

No caso de príncipe Andrew, é pior. Ele é acusado de estupro por uma das vítimas de Epstein, Virginia Giuffre.  No filme, ela mostra uma foto abraçada com o príncipe. A foto, segundo ela, foi tirada antes de ser estuprada. Andrew disse que nunca a viu. E que não tem explicação para as fotos. Está bem…

Fato: por quase 20 anos mais de quarenta testemunhas relatam casos de abuso e pedofilia contra Jeffrey Epstein. Mas isso não foi o suficiente para que a justiça fosse feita. Ele foi condenado em 2008, mas fez um acordo e ficou menos de um ano preso. E em uma espécie de cela VIP. 

A justiça só foi feita em 2019 (com ajuda do movimento #MeToo). Jeffrey Epstein foi encontrado morto em uma prisão de alta periculosidade de Nova York pouco antes do fim do seu julgamento. Teoricamente ele se suicidou. Mas algumas pessoas duvidam da versão.

O documentário é uma história de terror sobre impunidade, abuso por parte de poderosos e desrespeito com vítimas. É forte e doído de ver. Mas conhecer essa história vale a pena. Sabendo, a gente pode tentar evitar que se repita…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.