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Bolsonaro, menina brinca do que quiser e ninguém devia brincar de arminha

Nina Lemos

31/07/2019 04h00

Igo Estrela/ Estadão Conteúdo

"Menina brinca de boneca. Menino faz arminha". A frase foi dita ontem pelo presidente Jair Bolsonaro a uma família que estava com uma criança na porta do Palácio do Alvorada em Brasília. Foi gravada e publicada nas redes. O presidente ainda completou: "Meus filhos aprenderam a atirar com cinco anos. Esse aí já sabe?." Essa fala dá sequência a uma série de outras declarações escandalosas que o presidente vem deferindo nos últimos dias

Impossível não lembrar da frase da ministra Damares, que em janeiro provocou escândalo no mundo todo ao dizer que: "É uma nova era, menina veste rosa, menino veste azul". A frase rodou o mundo expondo o caráter ultraconservador do  atual governo do Brasil e gerou uma onda de indignação entre famosos e anônimos no Brasil, que postaram em redes sociais fotos vestindo as cores (ao contrário do que a ministra disse ser "o certo"). Dessa vez, não dá para brincar.

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O caso do "menina brinca de boneca, menino de arminha" é, claro, mais sério. Ele não está apenas sendo sexista e retrógrado dizendo que existe "coisa de menina" e "coisa de menino", mas fazendo apologia à violência e literalmente incentivando que crianças brinquem de fazer arma (um dos seus símbolos). E, pasmem, aprendam a atirar! 

Crianças brincando na hora do recreio apontando uma arma imaginária para os colegas? É isso que queremos? Alguém quer isso?

Menina ou menino, não importa, acho que a maioria das pessoas não espera que crianças sejam educadas para ter atitudes violentas. Queremos que elas, independentemente do gênero,  sejam pessoas legais, educadas, que respeitem o próximo.

Quanto às "arminhas", bem, o assunto é tão sério que em armas de brinquedo muito parecidas com uma arma real são proibidas no Brasil, assim como a sua fabricação. As leis são estaduais e funcionam em estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

No seu tempo que era bom?

"Ah, mas no meu tempo a gente brincava de revólver e não tinha problema nenhum". Bem, no passado a gente também via piada racista na televisão, não usava cadeirinha quando bebê e os pais fumavam dentro do carro com a janela fechada. As coisas mudam (algumas para melhor). A humanidade evolui.

Faz tempo que, na hora de presentear uma criança com uma arma (sim, às vezes elas pedem) as pessoas mais sensatas tentam comprar armas que não pareçam de verdade, mas que sejam mais lúdicas, como pistolas coloridas de água (e ah, isso não é um brinquedo de MENINO, mas de qualquer criança que queira brincar disso), claro.

E, óbvio, quando pensamos em crianças saudáveis, queremos que elas tenham acesso a esportes, brincadeiras… Aprender a atirar? Não.

Só menina brinca de boneca?

Qualquer mãe de menino que eu conheço (e são muitas) se preocupam em não criar seus filhos para que eles não caiam na masculinidade tóxica que faz mal para homens e mulheres. Sabe esse papo de que menino não chora? Isso é bom para os meninos? Bem, estamos em 2019 e todo mundo já deveria saber que não.

Meninos educados para fazer arminha? Isso não vai ser bom para eles nem para as meninas quando eles crescerem.

Quanto às brincadeiras, presidente, estamos em 2019. Há tempos especialistas e até fábricas de brinquedos vão se adequando aos novos tempos e fazendo, por exemplo, brinquedos de panelinha que sejam indicados para meninas e meninos. E, claro, as meninas também podem brincar de carrinho, porque um dia elas provavelmente vão querer dirigir. 

O que os pais querem é que seus filhos brinquem do que quiserem (mas nunca de machucar os outros, de ofender, fazer bullying). 

Entre as crianças que me rodeiam, existem meninos que gostam, sim, de brincar de boneca. E, claro, meninas também gostam de kit construção, por exemplo.

O filho de uma amiga, de 5 anos, gosta de ir de saia de tule para a escola. Acha divertido. O que minha amiga (e o marido dela fazem?) dizem que tudo bem. Várias vezes ela já me disse: "Criança tem que ser livre para brincar." Por isso, ele tem um vestido de princesa, que inclusive gosta de usar com um all star de caveira.

Sei que estou indo longe demais. E que no mundo de Bolsonaro e Damares isso seria um crime, um crime maior do que ensinar uma criança de 5 anos a atirar. 

Mas desculpem, eu falo do mundo real. Do mundo de 2019. Um mundo onde a maioria das pessoas já sabe que homens devem, sim, ser educados a fazer tarefas domésticas (e não só "ajudar" de vez em quando, mas dividir). Um mundo onde as pessoas querem que os pais participem igualmente na educação dos filhos, que troquem fraldas (muitos homens, inclusive, fazem isso, ainda bem). E que as meninas, claro, tenham seus kits de engenheiras e químicas e carrinhos se for disso que elas gostarem.

Vai fazer mal para um menino brincar de boneca? Eu duvido. Já fazer arminha, bem, acredito (e os psicólogos e educadores estão ao meu lado), que isso não faz bem para ninguém. Nem para os adultos.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos