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Nina Lemos

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Mensagens, sedução e sumiço: você já conheceu um galã de WhatsApp?

Nina Lemos

14/08/2019 04h00

Ele só aparece no celular? Sabemos… (iStock)

A designer Rosana, de 46 anos, conheceu Fernando (nomes fictícios) em um site de relacionamento. "Eu nem queria nada sério. Estava mais interessada em sexo sem compromisso. Mas conversamos e, depois disso, por iniciativa dele, passamos a nos falar todos os dias." O caso durou seis meses. "Ele me mandava mensagem e queria saber tudo da minha vida. Na hora de nos encontrarmos, ele sempre tinha uma desculpa."

Eles foram se encontrar seis meses depois da primeira conversa. "No dia em que nos encontramos, demos um beijo. Depois disso, ele me mandou uma mensagem e desapareceu". Rosana não é a única a encontrar um "galã de WhatsApp" na vida. A maioria das mulheres solteiras, principalmente as que frequentam sites e usam apps de relacionamentos, já trombaram com eles nesses tempos de WhatsApp, Facebook e Tinder. O padrão costuma ser o mesmo: nas conversas, são galantes, mantém contato, dizem eu te amo. Na vida real, demoram meses para encontrar com as moças, sempre têm uma desculpa pronta para furar um encontro e são sempre "muito ocupados."

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Os caras que a gente conhece na vida digital e desaparecem do nada, depois da outra parte da "relação" já estar envolvida ganharam até um nome: "ghosting" (de fantasma, em inglês)

Mas, o que leva alguém a agir desse jeito?

Segundo a psicanalista Maura de Carvalho, o galã de WhatsApp é um fenômeno contemporâneo, mas também é uma versão do Don Juan clássico. Ela lembra de uma coisa que parece óbvia, mas da qual nos esquecemos muitas vezes: o galã de WhatsApp (e outros tipos de Don Juan) existe porque nós, mulheres, de alguma forma, gostamos. 

"Sim, tem homem que fica contando a cirurgia da avó. A gente fica entretida, achando que é um meio para um fim. Mas não é. As conversas são um gozo em si mesmo. Mas temos que pontuar que os dois lados têm prazer nisso. Se a gente não tivesse prazer, não passaria tempo perguntando: e aí, como está o seu cachorro, melhorou? E a gente fica, porque está carente, porque tem prazer nisso." 

Manda nudes?

A escritora Marisa, 47, que já se envolveu com alguns desses galãs, concorda. "Mesmo sabendo que eles são uns boys lixos da internet, a gente vai levando e muitas vezes acaba se envolvendo", diz. Segundo ela, esse é um tipo clássico do amor "meia bomba líquido. No zap, o boy arrasa. Depois, não comparece. Sempre tem muitos problemas, é enrolado, atordoado", diz.

Marisa não é de usar aplicativos de encontro, mas conta que, nas atuais paqueras, a coisa funciona desse jeito. "Você está quieta no Facebook e alguém escreve e começa a te paquerar. Quando você vê, a coisa dura dias, já passou para o WhatsApp, você já mandou nudes. Encontro mesmo, acontece um só. E o cara depois disso quer manter para sempre esse clima virtual. Estou fora", conta.

Marisa estabeleceu um limite: "quando saio com um cara uma vez e ele já começa com essa coisa de "manda nudes" eu já digo que não. Nada contra nudes. Mas não vou ficar nessa masturbação virtual."

Socorro, o bofe sumiu

A empresária Maria, 53, recém-divorciada, coleciona histórias do gênero. E muitas vezes acaba se envolvendo. E sofrendo. "Conversei com um menino no Tinder, a gente trocou WhatsApp e ele me chamou para sair. Eu disse que não dava e ele insistiu. Ficamos nos falando o dia inteiro. No fim, aceitei sair com ele e fomos tomar uma cerveja. Achei que nem ia rolar, que ele não tinha gostado de mim. Mas tudo bem, foi uma boa conversa, ele me beijou, demos uns amassos e fui embora", ela conta.

Na mesma madrugada o rapaz mandou mensagem, mas Maria não respondeu porque estava dormindo. No dia seguinte, parecia inseguro: "Ele perguntou se eu tinha gostado dele. Disse que sim e que queria sair novo. Marcamos um encontro na outra semana. Até que, do nada, ele me bloqueou e nunca mais falou comigo."

Ele fez com ela exatamente o tal "ghosting". Maria ficou sem entender nada. 

Outra história que aconteceu com ela. "Tem um cara com quem fiquei falando por seis meses. Ele comentava todos os meus posts no Facebook, Twitter, tudo. Ficava insistindo, me mandando mensagem e falando que eu era maravilhosa, me chamando para sair. Um dia eu resolvi dar uma chance. E o que aconteceu? Ele disse que não tinha dinheiro. Mas eu estava chamando só para uma cerveja! Se ele não queria, por que tentou tanto me encontrar?"

Desculpas que não interessam

Maria conta que a falta de dinheiro é uma desculpa clássica. Filhos e trabalho também. 

Depois de se divorciar de um longo casamento e com os filhos já criados, a publicitária Ana, 52, resolveu usar aplicativos e passou pelos mesmos tipos de situação. "Sou a favor de usar, acho bom. Mas aquilo ali é uma selva e já identifiquei alguns tipos de Don Juan clássicos. Existe o bofe porteiro, que aparece para dar bom dia e boa noite, mas nunca encontra com você. Existe o de fim de semana, que no fim de semana desaparece, ou seja, ele é obviamente casado."

Mas seduzir online não é privilégio dos homens, claro. Maria Fernanda, 45, assume ser, ela mesma, uma "sedutora de WhatsApp". "As vezes estou em casa, sozinha, sem ter o que fazer em um sábado a noite e fico conversando com uns caras só para me distrair. Na hora de encontrar mesmo, tenho preguiça. Faço isso para suprir uma certa carência", ela se diagnostica. E completa: "triste, não?" 

Paquerar e se divertir não tem nada de errado, claro. O problema é quando alguém sai magoado.  Segundo a psicanalista Maura, a internet faz com que a gente esqueça uma coisa básica: do outro lado da tela tem alguém que pode se magoar. 

"Sim, as pessoas são mais corajosas nas redes, dizem coisas que não bancam na vida real. O que acontece é que o modo de viver contemporâneo faz com que não se entenda que do outro lado da tela tem uma pessoa com suas dificuldades e seus sentimentos", diz. Ou seja, na internet, fica mais fácil magoar os outros.

Pense nisso na próxima vez que você, sendo homem ou mulher, mandar aquela mensagem dizendo eu te amo e fazendo promessas sem ter certeza. Quem sabe ninguém sai machucado da brincadeira? Lembra quando as mães diziam: não quero que saia choro? Pois é…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.