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Todo mundo nu: como é ir a uma sauna de pelados na Alemanha

Nina Lemos

15/11/2019 04h00

O ambiente é até chique. Lá dentro, todo mundo pelado. E ninguém se importa com a opinião do outro (Nina Lemos)

Estou dentro de uma sala de menos de dez metros quadrados. Aqui estão sete homens nus. Eu também estou nua. Não, isso não foi um daqueles pesadelos horríveis, mas uma tarde normal em uma sauna da Alemanha. No caso, em uma piscina pública criada em 1900. Na tarde de quinta-feira, vários senhores andam pelados. Em uma sala ampla com espreguiçadeiras, um casal descansa: os dois têm livros nas mãos e estão nus. Homens e mulheres das mais variadas idades andam relaxados, com o roupão aberto.

Saunas onde todo mundo fica nu (homens e mulheres) juntos são uma tradição na Alemanha. E uma coisa que em geral assusta um pouco os "estrangeiros".  "Alemanha, aquele lugar esquisito onde as pessoas ficam peladas na sauna", dizem.

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Bem, a primeira vez em que fiquei pelada na sauna com homens, achei a experiência chocante. Hoje, cinco anos morando por aqui, acho completamente normal. E foi com tranquilidade que escolhi uma sauna que estivesse cheia para fazer um relato para Universa.

Diferentemente da primeira vez em que fui a uma sauna (cinco anos atrás) eu não tive nenhuma (eu repito, NENHUMA) vergonha ou desconforto. No horário em que fui, 80% dos presentes eram homens. E… normal. Eu superei todos os meus limites com tranquilidade, por exemplo:

-Tomei banho de ducha enquanto um homem também se banhava ao meu lado (os dois pelados, claro).

-Fiquei deitada pelada na espreguiçadeira, ao lado de homens e mulheres. Andei para cima e para baixo pelada. E isso não foi estranho.

-Vi um hipster pelado em uma banheira redonda estilo piscina romana com uma barba tão grande que encostava na água (e sim, isso foi um pouco estranho).

"Ela desatinou", vocês podem pensar. Não. Eu me acostumei com essa parte da cultura do país onde vivo.

Depois de um verão indo a lagos onde se pratica o FKK (Freie Körper Kultur, cultura do corpo livre, prática de nudismo) e ver meus amigos pelados, isso não é mais nada demais para mim. Ok, no lago eu faço apenas topless. Mas na sauna, bem, a sauna é outra coisa. Explico.

A sauna existe por aqui desde que a Alemanha é Alemanha. Ou melhor, muito antes. A sauna, segundo os historiadores, é mais velha que Jesus! Sim, ela existe desde antes dos anos 00, e se popularizou no Império Romano. 

Isso significa que é absolutamente normal, é uma tradição como a cerveja e a salsicha. As pessoas já crescem peladas na sauna. Ninguém olha para ninguém (se rolar, é exceção), as pessoas não vão ali para paquerar! 

As saunas estão ligadas à saúde e bem estar. E isso vem de muuuuito tempo. Desde o tempo em que não se tinha banheiro em casa e, por isso, era preciso ir a uma piscina pública e antes em uma sauna para se banhar. 

As crianças vão com os pais. Os senhores adoram e esse é um programa absolutamente normal para amigos fazerem depois do trabalho. Agora, no inverno, as saunas bombam. Você se sente muito relaxado e bem depois de algumas horas em uma.

Ninguém tira foto de ninguém

Existem regras de etiqueta para sauna? Claro. Evidentemente, você não pode fotografar (existem pessoas peladas, afinal). Eu fiz algumas fotos para ilustrar esse texto (absolutamente escondido, se vissem, eu seria expulsa). E você também não pode, por exemplo, ficar falando alto no telefone.

Não pode usar nenhuma peça de roupa, nem shorts, nem biquini. Se os outros estão pelados, você tem que ficar também. Uma vez, em uma sauna só de mulheres (são raras, mas existem) levei uma bronca de uma senhora porque entrei na salinha sauna com a parte de baixo do biquini. Não pode. É uma regra de etiqueta que deve ser respeitada.

Funciona assim: você chega, paga (não é barato, custa 17 euros o período de três horas), vai para um vestiário. Ali, tira toda a sua roupa (as saunas são mais usadas no inverno, com temperaturas que vão de 5 graus a menos 10) guarda tudo em um armário e sai de chinelos, roupão ou toalha, sem nada por baixo. E assim será pelas próximas horas. Se você pedir uma comida no bar da sauna, vai comer de roupão ou enrolado em uma toalha. E ninguém vai ligar, afinal, você está apenas fazendo o que todo mundo ali faz. 

Nessa sauna em que fui para fazer esse texto, os funcionários do restaurante estavam de roupa. Mas o funcionário da sauna que limpava o chão, estava pelado, apenas com uma pequena toalha na cintura, que ele tirava quando ia, por exemplo, limpar as áreas onde ficam as duchas geladas. A nudez é para todos. Mesmo.

 

Não tem paquera mesmo?

"Você nunca paquerou alguém na sauna?", pergunto para meu marido, alemão raiz. "Não, claro que não. Se você vê uma mulher muito bonita, inclusive, você tenta nem olhar para que ela não ache que você está paquerando. Sauna não tem nada a ver com sexo ou paquera, tem mais a ver com saúde. E não é estranho para mim, afinal, eu vou na praia nu desde criança. Isso é normal."

Eu já vi, nos dias de hoje, crianças peladas na sauna, junto com seus pais, tanto meninos e meninas. Elas não pareciam assustadas. Nem os seus pais preocupados. É cultural. É uma tradição.

Se para nós, brasileiros e estrangeiros em geral isso não é estranho? No início (e para muita gente) é. Mas você aprende, com o tempo, as vantagens, como, por exemplo:

-Você fica mais relaxada com a questão "estou ou não estou depilada". Algumas pessoas estão, outras não, e, na verdade, você nem sabe, porque ninguém se olha. 

-Você fica mais relaxada com seu corpo no geral. Afinal, pessoas de todos os corpos e idades estão ali. E, sim, isso te ajuda também a lidar com o seu envelhecimento. Se tem pessoas peladas de 80 anos na sauna (e tem muitas) sem vergonha do corpo, eu que não vou ter do meu, oras! E um dia meu corpo vai ser como o deles, normal.

No início, pode causar estranheza. Mas eu recomendo a experiência para todas as mulheres que tiverem coragem de encará-la. Você vai sentir vergonha, mas com o tempo vai te fazer bem. Já fui com muita amiga brasileira do tipo que sempre pensa em coisas como "ai, estou gorda, ai não estou depilada" em sauna na Alemanha. No início, ficaram tensas, achando que homens estavam olhando para elas (você não está no Brasil!, quase gritei), mas, com o tempo, elas relaxaram.

Se tiver oportunidade, tente. Você vai ver que isso não é nenhum bicho de sete cabeças. Enquanto escrevo esse texto, me sinto totalmente relaxada e limpa (que delícia aquelas salas com aroma). E, não, não vou pensar antes de dormir que estive em uma sauna com várias pessoas nuas ou ter pesadelo. Eu só fui na sauna. Ficar pelado é apenas um detalhe. Eu juro.

Sobre a autora

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance “A Ditadura da Moda”.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre a vida das mulheres com mais de 40 anos, comportamento, relacionamentos, moda. E também para quebrar preconceitos, criticar e rir desse mundo louco.

Nina Lemos